Obrigada por me lembrar que não vim ao mundo para viver à sombra de um homem

Fotografia de Ilya Rashap

Quase me esqueço.

Obrigada por me colocar na parede do descaso e me forçar a admitir que não me adequo, que não posso caber no perímetro pobre e bajulador reservado a uma mulher, dentro da rotina daquele que só tem tempo para pensar em si mesmo. Que está ocupado demais para celebrar os olhares que se cruzam na grandeza da existência, então os desperdiça.

Obrigada por ir embora tão rápido. Eu queria um destino junto, mas você se adiantou e descreveu, com suas atitudes e escolhas, por que essa seria uma condenação para mim.

Obrigada por me punir veladamente pelo meu tamanho, para que eu nunca me esquecesse do quanto sou uma mulher grande para além das formas: em pensamentos, na minha fome de viver, na minha crença inegociável de que viemos a este mundo para aprender a amar uns aos outros de inesgotáveis maneiras.

Obrigada por me deixar sozinha, em minha própria companhia. Demorei a compreender que não havia nada de errado comigo, mas quando parei para me enxergar de perto, creio que me perdi de amores por tudo o que encontrei.

Obrigada por me fazer perceber que o meu prazer teceu caminhos próprios, férteis e maduros, que não sou mesmo capaz de ignorar os chamados do meu corpo, da forma que eles chegam, para performar o que qualquer moleque estúpido possa ter aprendido com os filmes de estupro.

Obrigada por me mostrar, deixando minhas mensagens sem respostas, que existia um destino muito melhor previsto para as minhas palavras, para o que vim contar ao mundo.

Você me sinalizou que meu chamado é excessivo, que demando muita vontade, que transbordo das obrigações, que violo as leis muitas vezes silenciosas que escravizaram nossas mães, avós, bisavós. Sou marginal em teu mundo. Você me provou que meu colo é raro, que meus gestos são largos, que eu quero experimentar de tudo, apaixonadamente e sem volta. Que não tenho medo, que sou capaz de ir até o fim para materializar meus sonhos, mas que eu estava sonhando muito menos do que poderia, enferrujando minha totalidade para me submeter a completos desconhecidos. Por vezes, em série.

Mas agora percebo que meu coração nunca foi capturado, que ele me pertence e que tentar enfiá-lo em uma gaiola medíocre só demonstrou o tamanho da minha força sobre mim. E se eu pude fazer isso comigo, se fui minha própria domadora, então também tenho o poder de fazer e desfazer outros milagres selvagens.

Em meu tempo de dor, achava que as partidas ocorriam por minhas falhas. Mal sabia eu que elas faziam um inventário dos meus acertos, para que um dia eu tomasse conhecimento da minha incrível força em gritar: “Não vim para ter menos, não posso ser menos. Meu espírito é imenso”. Gritar, eu digo, do lugar mais remoto de mim mesma e ensurdecer uma metrópole. Um dia, eu despertaria de um longo sono, olharia no espelho e compreenderia que paisagem vasta eu sou.

Obrigada por incomodar essa fêmea que chegaria com o pé na porta da minha fantasia de docilidade e tomaria tudo o que sempre foi dela por direito.

Obrigada por me contar que sou farta, que não serei explorada como a fazenda afetiva de alguém. Porque sou floresta.

Obrigada por me lembrar que não vim ao mundo para viver à sombra de um homem.

Obrigada por me lembrar que não vim ao mundo para viver à minha sombra.

Obrigada, minha sombra.

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Maria Gabriela Saldanha é escritora feminista que vem se dedicando, nos últimos anos, ao tema da libertação emocional de mulheres. É também estudiosa de mitologias, simbologias e linguagens oraculares, escrevendo sobre Tarô, Sagrado Feminino e outros universos simbólicos por meio da página Matriarcaria — Laboratório de Arcanos e Arquétipos, no Facebook.
Instagram: @mariagabisaldanha ou @matriarcaria