O peso do papel

De repente, eu virei a namoradinha. Aquela que avisa quando sai do trabalho, quando chega em casa, conversa com o sujeito sobre o dia, conta novidades, e encerra o papo com aquele inofensivo “te amo”. Que diz bom dia e boa noite e acaba, invariavelmente, fazendo parte do seu cotidiano.

Veja bem, a “namoradinha” não está ligada ao conceito de exclusividade. Na nossa relação livre, trata-se muito mais de um comportamento do que de um status. É aquela presença silenciosa, que, você sabe, vai se manifestar dentro de 24h — não há dúvida, não há insegurança, não há “será?”. Porque será, sim. Porque é. Porque está.


O problema é que tem gente que não quer isso. Não importa a maneira como essa personagem se manifeste: seja de um jeito monótono com ar de obrigação; seja de boa, como quem só quer ouvir a voz do outro; seja com a maior leveza do mundo, naquela vontade de compartilhar coisas que viu e viveu naquele dia, assim, por amor mesmo. Não adianta. Quem não quer participar disso, não quer e ponto.

E então você, a “namoradinha”, se torna um fardo. Uma protagonista intolerável, que precisa ser eliminada. O sujeito não quer compartilhar nada contigo, nem saber da sua vida, e tá pouco se fodendo pro seu bem estar físico e/ou espiritual, enfim, não se interessa mais.

Aí ele se empenha em te apresenta o kit completo do cara cuzão. Você ganha foras, patadas, silêncios, meias-palavras, e esculachos da melhor categoria Chuck Bass. Um desdém que vai na alma, mana.


Você se questiona onde errou, se até ontem estava tudo bem. Até ontem, mas não hoje, porque o hoje já representa uma continuidade, uma espécie de compromisso velado. E isso é insustentável pra sujeito. Sujeito só quer olhar pros próprios interesses, pras próprias vontades, e você só é valiosa enquanto é útil de alguma forma. É a história mais antiga no universo dos relacionamentos, mas quando acontece contigo, revolta. Tudo fica nebuloso e aquela mudança de comportamento custa a ser compreendida e aceita.

Mas é assim que funcionam as relações descartáveis, os sentimentos marromenos, que se disfarçam de intensidade pra justificar sua brevidade. E você se pergunta até que ponto vale a pena amar muito em 30 dias. Mesmo todo amor tendo sua irrefutável importância. Toda intensidade é linda, todo gostar morno é uma bosta, mas não existe um meio termo? Um amor intenso e maluco não pode durar um cadin mais? Precisa ser algo tão solúvel e efêmero?


Parece que sim. Mesmo com toda a liberdade, a “namoradinha” não é bem vista. Amar com frequência e constância, se preocupar e cuidar do outro de verdade, não é para esses tempos, tão difíceis para sonhadores.

E então você aceita, segue sua vida, aprende a lembrar e ver o que você queria, o que você fazia e o que mais — como diria Amarante. Então você volta a ser comedida e seletiva com os seus “te amo”, e direciona essa frase só pra quem nunca te decepciona: comida, migos e Netflix.