Clássicos que não questionam relacionamentos abusivos.

#EuViviUmRelacionamentoAbusivo

La dolce vitta, Fellini.

Aparentemente os filmes de Fellini em parceria com seu amigo o ator Marcello Mastroianni querem narrar as histórias de jovens intelectuais hedonistas em busca do sentido da vida. Só que isso poderia ser investigado sem explorar as cenas de Marcello dando tapas na cara de Sylvia, ou a empurrando por Roma, ou a agredindo verbalmente. E também não consigo encontrar uma justificativa no roteiro do filme para os abusos que Sylvia sofre e o machismo escancarado de Marcello Mastroianni com todas as outras mulheres.

Se isso não é Gaslighting então eu não sei o que é.
Salomé, Richard Strauss e Anton Lindner.

Salomé é um personagem bíblico. A personificação do mau. A serpente. Só que Salomé também é uma mulher dentro de uma obra patriarcal. Uma mulher que na verdade é uma menina de 16 anos fetichizada e cobiçada pelo padrasto, exposta a uma cultura que pune todas as expressões de prazer e poder feminino. Ninguém em momento algum percebe que ela e sua mãe são mulheres regidas por um tirano, em relacionamentos abusivos. E a cena da dança dos sete véus é uma metáfora para isso. Uma metáfora para o ato de um homem que demandou poder estuprar a enteada na frente de sua corte inteira. Por ciúmes do poder da rainha e de sua sucessora a princesa Salome.

Medea, Euripides.

Euripides descreve Medea como bruxa, louca, dissimulada - a assassina de crianças. E a humanidade inteira acreditou que ela realmente era isso até que nos anos 1980 a dramaturga alemã Christa Wolf decidiu contar a história do ponto de vista de uma mulher e desvendou os abusos psicológicos que Iason cometia contra ela.

Lolita, Nabokov e Kubrick.

Dizem que o livro Lolita de Nabokov é uma das obras mais má interpretadas da história da literatura, que ele na verdade quis mostrar a mente perversa de seu protagonista. Pode até ser, não podemos negar a genialidade de Nabokov ao lidar com as palavras, mas alguma coisa deu muito errada, pois Lolita virou mito e as pessoas se referem a crianças e adolescentes sexualmente prematuras com esse termo e esquecem que crianças e adolescentes desenvolvem o corpo primeiro para depois amadurecerem psicologicamente. E principalmente o filme cult “ Lolita”(1997) de Kubrick transformou algo que no hemisfério norte já estava sendo considerado inaceitável em algo que pode ser “conversado”, em certos até “aceitável”. E só pesquisar como as revistas direcionadas à adolescentes na época enfeitavam suas modelos com os óculos de coração da Lolita do filme.

On the road , Kerouac.

A escrita de Kerouac encanta, não é à toa que ele é considerado o rei da geração beat. Mas e os personagens de seu livro “On The Road” que demonstram comportamentos extremamente abusivos com suas respectivas parceiras e Kerouac que faz isso tudo passar despercebido. Como assim uma cara de vinte e poucos anos foge com Mary Lou uma menina de quatorze e ainda casa com ela? E como é possível que uma mente tão brilhante não conseguiu enxergar que aquilo ali era puro machismo?

E se Goethe, Brecht e Dürrenmatt já conseguiam enxergar a hipocrisia da sociedade perante as mulheres não tem desculpas para esses caras não terem feito o mesmo.