Terça da Mulher no Cinema: Ava DuVernay

A gratidão que você sente pelas reflexões que o filme “Selma — Uma Luta pela Igualdade” te proporcionou, você deve a uma mulher afro-americana. A diretora, Ava DuVernay.

Cena do filme “Selma” que mostra a marcha sendo interrompida pela polícia.

Sempre quando filmes chegam a premiações do calibre da “Academy Awards”, popularmente conhecida como “Oscars”, automaticamente deduzimos que as pessoas que atuam por trás das câmeras e que são as responsáveis pelo sucesso da produção são donas de nomes como Quentin, Steven ou Martin. Principalmente quando se trata de produções que não abordam assuntos tidos como “tipicamente femininos” como é o caso de “Selma — Uma Luta pela Igualdade”.

A proposta de “Selma” é investigar a trajetória das pessoas que integravam o núcleo de militância contra a segregação racial e a narrativa dos acontecimentos que levaram Dr. Martin Luther King a convocar um dos protestos mais importantes da história da humanidade: a marcha de centenas de pessoas de Selma até Montgomery em protesto às políticas raciais da época. E essa proposta gerou polêmica exatamente por não ter surgido do escritório de um dos grandes homens de Hollywood, mas sim das mãos da até então pouco conhecida Ava DuVernay.

Polêmica porque anos atrás o diretor de “Titanic”, Steven Spielberg, havia adquirido os direitos autorais sobre a biografia do pastor mas não tinha demonstrado pretenções de realizar o projeto tão cedo e Ava, enquanto cineasta, mulher e negra, sentiu a necessidade de aludir um dos momentos mais marcantes na história da diáspora dos povos africanos e encontrou um caminho ao optar por contar a história da marcha e não a da vida de Dr. King. Uma forma inusitada de desvelar a figura Martin Luther King que rendeu ótimas criticas ao filme e à diretora ao ponto de levar Spielberg a pedir que David Oyelewo interpretasse King no “biopic” de sua autoria.

Porém durante a negociação com o ator britânico, Spielberg comete um notório deslize: Ele insinua que com o filme de DuVernay, uma cineasta insignificante a seu ver, David acabaria sendo esquecido e que incorporando King em seu filme isso não aconteceria. Sim, vocês leram corretamente. E Oyelowo não soube o que responder como revelou ao jornal “The Guardian” e conta que só se lembra de seu estômago se revirando, de ter se sentido lisongeado e de ter pedido um tempo para pensar. Ava não deu comentários à imprensa. Uma inteligente jogada pois as críticas de Spielberg me parecem ser fruto de seu ego mimado por uma indústria feita de homens brancos para homens brancos.

Outra crítica que Ava recebeu, desta vez do jornal alemão “DeutschlandRadioKultur” foi a de ter sido muito livre em sua leitura e com isso ter construído uma narrativa pouco fiel aos fatos históricos. Já eu interpreto a escolha de Ava em mostrar personagens históricos em situações do cotidiano como uma maneira de investigar os pequenos atos aparentemente comuns que deram início a uma revolução social.

David Oyelowo como Martin Luther King em “Selma”.

As respostas ou “não-respostas” de Ava à todas essas críticas parece ser seguir incansavelmente “buguando” o sistema. Seja ao colocar sua protagonista, uma mulher negra, como uma das pessoas mais influentes no jogo de poder pela capital política estado-unidense em seu seriado “Scandal” ou em tentar registrar os danos psicológicos, identitários e estruturais causados à população afro americana em seu premiado documentário “13th”.

Mas como surgem essas críticas?

Críticas como a de Spielberg acontecem e são passáveis porque estamos inseridos em um sistema acadêmico e artístico que se mantêm colonizado por uma ideologia eurocêntrica. E esse sistema se mostra resistente às tentativas de reforma ao se negar a refletir sobre sua história, seus fundadores e como isso afeta nossa percepção. Pois se sairmos só um pouco do padrão algumas perguntas surgirão, perguntas essenciais como: Por que a interpretação de uma mulher negra sobre o que é segregação racial é “livre demais” ou menos válida que a de um homem branco e famoso? Não é para vermos e sentirmos diversas interpretações de um acaso que a arte existe em primeiro lugar? E quem além de uma diretora descendente de pessoas que marcharam ao lado de Dr. King estaria mais capacitada de levar a história de um dos maiores ativistas do movimento afro-americano às grandes telas?

Perguntas que talvez ajudariam a evitar críticas que na verdade disfarçam uma questão mais delicada mas que precisa ser discutida por todos nós: o racismo estrutural que está impregnado em nossos pensamentos. Pois como Goethe disse, o diabo está nos detalhes e já que o filme trata de pessoas como Dr. King, as Panteras Negras, Malcom X e Angela Davis, pessoas que propuseram uma mudança radical na nossa mentalidade, é nossa obrigação de pelo menos nesses momentos nos exercitarmos em desconstruir o que nos foi ensinado. Nós temos que começar a reparar em nós mesmos para ocuparmos espaços e exercermos críticas de maneira consciente. Aceitando a construção social racista e misógina que recebemos e demolindo cada pedacinho dela.

Um primeiro passo nessa direção é celebrar mulheres como Ava DuVernay. Aceitando os tapas na cara, o incômodo que suas criações causam e tentando destruir tudo que gera esse desconforto dentro de nós. Visto que as obras de DuVernay, mesmo as mais comerciais, nos levam a questionar o que entendemos como normalidade e a perceber os importantes pequenos problemas que somando se tornam um peso imenso nas costas de cada pessoa que não se encaixa nos padrões estabelecidos.

Ava DuVernay com seus atores David Oyelowo e Oprah Winfrey.

Portanto se o objetivo de artistas como Ava é o de gerar desequilíbrio num sistema que ao ser construído só contabilizou pessoas de um sexo, uma cor e classe social nós deveríamos nos deixar desequilibrar por suas obras até conseguirmos jogar todas as peças no chão, destruir o tabuleiro e criar novas regras.

Para que talvez um dia, elas enquanto mulheres negras e todas nós enquanto mulheres, viremos a ter a liberdade de contar as histórias que queremos sem sentirmos a obrigação de falar sobre algo que nós rouba o oxigênio, de termos que criar como um ato de resistência, como uma maneira de manter nossas cabeças fora d’água.