Feliz até os dentes

Maria Helena Alvim
May 21 · 1 min read

Imagine que você um dia você aprenda uma receita fácil de um prato muito bom. Uma receita muito simples, baseada em um ingrediente comum, que você encontra a dois passos de casa. O prato se torna seu evento semanal, o dia de brilhar na cozinha, sem esforço — o prato praticamente se faz sozinho, sem tempero nenhum.
Imagine então que a dois passos de casa não exista mais o ingrediente. Nem a três, nem a um quilômetro, nem em outro bairro, outra cidade, nada num raio de 9000 km. Seu prato se torna uma lembrança, uma lacuna no seu cardápio, um número a menos nos seus truques de cozinha. Você se arranja com outros, tira da manga o espinafre e o gorgonzola. Finge que não tem importância — mas é como um dente da frente faltando.
E então um dia, despretensioso, você pergunta por ele, só pelo hábito de perguntar. Mas dessa vez a resposta é: “sim, nós temos”. E todas as suas perguntas confirmam: “sim, eles têm”.
Você não acredita, mas compra 100 gramas de um tesouro fatiado fininho, quase transparente. Sua boca saliva só de olhar o pacote fechado. Você sonha. Volta pra casa flutuando. Faz planos de como vai ser.
E à noite você cozinha. E depois come só — essa é a parte ruim.
Mas uma parte de você está de volta, nadando no azeite, cheirando a cebola. Você vai ser feliz de novo. Agora você sabe. Você sente.