Essa é uma história sobre como eu senti que podia superar as marcas de um relacionamento abusivo.

Faziam seis meses e eu ainda não havia conseguido me recuperar. Cheguei naquela fase que já tinha repassado tantas vezes a mesma história na cabeça e a contado de tantas formas para os amigos de sempre que tudo virara um embolo só. Eu não tinha mais capacidade de organizar os traumas em ordem cronológica e comecei a esquecer de algumas coisas (minha terapeuta disse que era mecanismo de defesa contra sofrimentos).

O pior de tudo não foi o término, com toda certeza. Foram os inúmeros assédios que sofri durante esse processo.

Minha crise de ansiedade veio, eu passava sete dias seguidos sem dormir a noite, olhando pro teto, vomitando pela manhã, comendo muito pouco. Vi todos os filmes e séries que me interessavam na netflix, como artifício pro tempo das longas madrugadas passar mais rápido. Em uma dessas noites, entre um episódio de Orphan Black e outro eu vi aquele comentário na foto dele. Parece loucura, mas não consigo lembrar o que aquela garota havia escrito pra ele na ocasião, mas lembro de como aquilo me causou medo… eu o tinha perdido. Ele seguira a vida sem mim. Eu não segui sem ele.

Nunca tinha tido uma crise de pânico até então. A sensação era de que o desespero nunca acabaria. O tempo não passava.

O pior das relações abusivas é o que elas nos fazem sentir posteriormente. Foram tantos acontecimentos negativos e um psicológico tão fragilizado que eu comecei a não conseguir lembrar das coisas boas. Por inúmeras vezes eu evitei as redes sociais por que aquele íconezinho, aquela fotinha minúscula que aparece nos comentários dos amigos e amigos de amigos me fazia tremer. Ela me causava incômodo, o nome me enjoava, eu não queria lembrar daquilo, não queria. Mas era involuntário, não conseguia a relacionar com qualquer outra coisa se não isso.

Ele dizia “não houve nada entre nós, aquela lá é uma louca” e eu pensava “pra quem será que ele diz que a louca sou eu?”.

Eu segui. Me forcei a seguir mesmo tão inflamada, com fratura exposta e calos doloridos. Segui mesmo com todas as questões mal resolvidas e com as mulheres que me causavam náuseas por causa dele. Eu sabia, e me esforçava para entender que a culpa não era de nenhuma delas. Quase impossível.

Pouco tempo depois um grande amigo começa uma nova relação e como enredo de novela das nove, a garota era ela. Se meu ex falava a verdade ou não sobre nunca ter acontecido nada entre eles, eu nunca realmente soube, mas agora eu tinha que conviver com aquela mulher que tanto me lembrava do medo. Medo de ter medo outra vez.

“Ela foi a causa da pior noite da minha vida. Não, ele foi.” eu pensava naquela confusão entre razão e sentimentos.

Um dia, eu não consegui fugir.

Eu percorri os olhos pela sala cheia de amigos, indo de pessoa em pessoa, esbarrei naquele olhar que me encarava com intriga. Era a primeira vez que eu olhava nos olhos dela, mesmo sabendo quem ela era a muito tempo. Me senti envergonhada. Ela sorriu, eu sorri de volta. Meu sorriso há tempos não era tão sincero. Numa mistura de alegria e alívio eu soube: aquela mulher me merecia e eu merecia ela.

Ele, não merece nenhuma de nós.