Eu preta, tu me dói.

É tudo igual, mas nem tanto. Meu choro não é acompanhado do teu pranto porque a minha dor é tu quem causa. É o branco da tua pele que me dói, em cada sentido que te faz perecer maior, que me faz ser menor e acreditar nisso em vão. É o preto da minha pele, o escuro do meu sangue mulher, sangue de gente sofrida que não arreda o pé, que sente aqui dentro que cada qual é cada qual e teima em ter empatia com quem de mim arranca ardor na boca do estômago.

Não tem Kundera ou Galeano que fale de amor pra mim, amor é pra tu, que sempre foi branco, claro, bege, rosa que negado não sabe o que é ser, trocado não sabe o que é ser e que assim segue sendo sem sentido porque amar errado, amar doendo te faz bem. Amar negando. Amar trocando. É sobre tu, não é sobre mim.

É tu branco de cabelos negros longos que me dói, é tu alva e loira que me dói, é tu que ainda faz morada e que eu queria que não doesse esses olhos verdes que me engolem. E dói, como os outros.

É a sina de não escolher-se amor, o destino cuidando de ser perverso, que me faz assim, preta doída do amor não exclusivo, do esconderijo do mundo, do escuro das almas onde ninguém me vê. Onde me esconderam, onde tu me esconde. Tu, tu e tu. Que escolheram me amar não amando, amar me doendo, amar não me dando aquilo que eu de pronto, mereço.

E continuo esperando. O melhor. De mim, porque os tus, esses eu não sei.