Feliz dia dos discursos questionáveis

Esperei terminar o primeiro dia da 45ª ABAV para fazer o post comemorativo ao Dia Mundial do Turismo. Eu realmente esperava que este dia 27 fosse comemorado adequadamente, como se espera que aconteça nessas ocasiões — menções em discursos e ações específicas voltadas à informação do público em geral.

O esforço da ABAV e BRAZTOA em realizar o evento nesta semana já é um grande mérito, reconheça-se. O empenho e dedicação de Edmar Bull e sua equipe, e a garra de Magda Nassar são dignos de muitas homenagens e reverências. Fazem milagres estes dois líderes que eu admiro. Quem sabe um dia seus pedidos e reivindicações sejam, de fato, ouvidos por quem tem o poder de assinar os documentos do turismo deste país.

Mas a abertura da ABAV, mais uma vez, se descola da realidade — inclusive da realidade que estava ali, dois andares abaixo, com stands mais enxutos, com dimensão menor que outras edições, mas com público aparentemente muito mais interessado e disposto a atuar pelo turismo brasileiro.

A começar pelo fato de que eram 12 homens e 1 mulher, sendo que muitos deles ocuparam um espaço cênico apenas, sem direito a fala. Entre eles o atual secretário de turismo do estado de São Paulo. Subiu e desceu calado, um pouco tímido eu diria, do palco. Não faz sentido, e mais gente precisa se manifestar contra esse domínio masculino, branco e hétero.

O presidente dos Correios fez uma fala que deveria ter arrepiado os agentes de viagem presentes — ou fui só eu que o ouvi dizendo que há um movimento para que as agências de correio vendam passagens e pacotes? Isso depois de a plateia assistir a 13 obliterações de selos com imagens turísticas do país. Ninguém explicou de fato, mas obliteração é o ato de colar e carimbar um selo para que ele possa ser exposto no Museu dos Correios. As treze vezes foram uma delicadeza para que os componentes da solenidade levassem para casa uma lembrancinha… Selo, gente. Selo, em tempos de correspondência eletrônica decadente, e cada vez mais áudios de WhatsApp.

Em seguida, a solenidade vira palanque político. O presidente da Embratur, declarado candidato à prefeitura de Florianópolis, o ministro do Turismo, candidato ao senado pelo estado de Alagoas e cabo eleitoral confesso do atual prefeito de São Paulo, e o próprio, que chegou atrasado, atrapalhou o discurso do ministro, rompeu o protocolo e fez discurso de campanha para presidência.

Em todos os discursos, a condenação veemente de qualquer realização passada, e uma quantidade de sugestões que a gente sabe que não vão dar certo. O ministro, por exemplo, indica que só agora o presidente reconhece a importância econômica do turismo — deve ser por oposição, já que o orçamento da pasta foi reduzido em 85%. As falas são repetitivas, demagógicas, muitas vezes construindo um cenário inviável, mas plausível. A audiência aplaudiu, mas sem nenhum entusiasmo.

Seria incrível, um dia, que as falas coincidissem com a realidade. Que alguém de fato anunciasse melhores números do setor, melhores salários, mais empregos para quem escolhe essa carreira, maior presença internacional dos destinos brasileiros. Mas a gente sabe que são só palavras. Infelizmente.

Ainda assim, em diferentes lugares do mundo, e do Brasil, o turismo aconteceu. E muita gente foi muito feliz hoje, por estar em lugares diferentes, experimentar sabores novos, viver experiências inesquecíveis e voltar com vontade de viajar mais. Vamos celebrar as viagens, vamos torcer para que, apesar dos mentirosos contumazes que se apropriam de palavras vazias, o turismo cresça de forma sustentável no país.


Originally published at blog.panrotas.com.br on September 27, 2017.