Deus, a feiura e os escritores

Maria Luiza Artese
Nov 6 · 3 min read

Perhaps some day I’ll crawl back home, beaten, defeated. But not as long as I can make stories out of my heartbreak, beauty out of sorrow. — Sylvia Plath

Quando perguntaram para Jung se ele acreditava em Deus, ele não respondeu que sim. “Eu sei”, disse ele. “Eu sei, não acredito”. A fé é algo totalmente diferente da crença, a espiritualidade é algo totalmente diferente da religião: para saber, é preciso descobrir, por isso esse processo é diferente para cada pessoa. “Você precisa acreditar em Deus” passa longe de qualquer compreensão real do espírito. Acredita-se num algo que está em xeque, e tudo em que se crê pode ser revertido. Eu quero saber, e não acreditar. E, embora as pessoas duvidem, eu sei. Sei de muita coisa e tive mais chances para isso do que elas.

Acontece que minha família é uma família assombrada: seus pactos fantasmáticos são mais fortes que os meus, mas eles não são capazes de discernir entre a matéria e o ectoplasma. De um lado acreditam que todas as minhas dores são obras de fantasmas; do outro, que eu os atraio. Há quem se queixe de dores e angústia por causa das nossas feridas. As minhas, as da minha mãe, as do meu pai. Afasta-te de todo o mal, de tudo que dói, de tudo que é feio e escuro e sofrido. Relega-os ao esquecimento, foge do horror do mundo como o diabo foge da cruz. Em nome do pai, do filho, dos espíritos todos. Gratidão.

Se essas pessoas acreditam num deus, essas devem ser suas regras. E por ele ser tão fraco a ponto de ser feito de crenças, está distante dos pobres, dos oprimidos e dos sofredores, e a sua santíssima presença não chega ao que é mais feio e dolorido. Esqueceram-se que o diabo deve ser lindo, alegre e distrativo. Que ele jamais pisaria em nenhum gatilho.

Mas as pessoas acham que são feitas de energia, quase como fantasmas também. Então confundem tudo: acham que se só tiverem pensamentos positivos, evitando olhar para as dores, as deles e as dos outros, tudo que houver de ruim desaparecerá magicamente. É uma versão reformada do “engole o choro”. E é igualmente covarde. Não, eu não vou deixar de falar da ferida, não vou deixar de falar do sangue e do pus e do escarro. Malditos escritores com a alma fraca! Tocam no que empurramos para debaixo do tapete. Como ousam?

A minha tribo nunca se encaixou direito. Frequentou, sim, muitos hospitais psiquiátricos. Passou pelas coisas mais horríveis, e uma grande parte de nós, escritores, criativos em geral, acabou com a própria vida. Nunca deixamos de falar nos nossos mortos. Porque é isso que temos de fazer: não escondemos seus corpos como desovas criminosas, nós os honramos. Sylvia Plath, minha amada Sylvia, fez da sua morte um espetáculo memorável: imortalizou-se como uma bela adormecida, e continua desperta dentro das gerações seguintes. Falar das suas agruras não é cínico. Ela mesma as deixou registradas num dos livros mais importantes do século XX, no que não deve ser apenas a minha opinião. E no final das contas, é disso que se trata a verdadeira arte. Do que dói, do que sangra e do que mata. Mas não morre. Por ser arte, nunca morre.

É a nossa humilde forma de sobreviver enquanto vivos, e de continuar vivendo depois de mortos.

Místicos e religiosos, não nos excluam: nós não somos malditos.

Vocês sabem que não. Mas precisam acreditar.

Maria Luiza Artese

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Gasto muito tempo — e pouco espaço — viajando. Tento ser escritora. Se eu entendesse de ciências, seria bióloga, mas como eu só sinto, estudo psicologia.

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