Chá

Vou ficar aqui, nessa casa úmida e escura, até o final dos meus dias. 
 Quase não me alimento mais. Por vezes, vejo um inseto ou uma larva entrando em meu quarto e os devoro. Tomo a água que verte das paredes quando chove muito. Quando me sinto fraca e vulnerável, mato algum pombo a pedradas, o depeno e o como cru. Lambo o sangue que escorre pelos meus braços. Costumava, antes, ir ao mercado. Cumprimentava os vizinhos. Arrumava meus cabelos. Vestia minhas joias. Não mais.
 
 Desde que ele apareceu, sinto-me como um animal imundo, violento, tenebroso. Ele jamais se apresentou. Disse apenas que estaria sempre perto de mim, de alguma forma. Disse que eu era linda de uma maneira fúnebre, que minha beleza faria mais sentido morta. Me entregava flores quase todos os dias, sempre as mesmas: Cerbera odollam. Eu ficava tentada em devorá-las. Certa vez fiz um chá de suas pétalas. Fechei todas as janelas, acendi um cigarro. Passei horas olhando para aquele líquido tão sedutor. Terminei meus últimos dois maços e decidi por não tomar. Virei na terra. Desde então, preparo o chá todos os dias, mas nunca o bebo.
 
 Ele passou meses me visitando. Me dizia como todos aqueles que eu enxergava jamais entenderiam a lógica quase poética da morte. Ele cantava, dançava, preparava o jantar. Servia um vinho forte e dizia que o havia trazido de um lugar parecido com o inferno. Nos embebedávamos e proclamávamos poemas juntos. Tirávamos as roupas e nos mutilávamos com uma faca afiada, sempre a mesma. Ficávamos num frenesi observando o sangue que escorria. E bebíamos nosso sangue com vinho. O sexo era violento, brutal. Gritávamos como dois animais. Era como se estivéssemos criando um novo universo naquela mistura de prazer e dor.
 E então, ele não mais apareceu. Mas de uma forma estranha e dolorosamente real, ele nunca mais saiu de mim. Ele continua me dizendo o que fazer. Continua proclamando as nossas mesmas poesias sobre a beleza do sangue, da morte, das guerras, do sofrimento. Continuo recebendo as mesmas flores.
 
 Não teve mais um único dia em que não chorei. Os chás foram ficando cada vez mais tentadores. A voz dele, cada vez mais alta. Eu não sentia sua falta. Não sentia falta de quem eu fui um dia. Mas não me sentia mais parte de nada. Eu era apenas um animal grotesco, rude, vivendo em um lugar onde jamais poderia comer em paz. Abandonei meu apartamento no centro da cidade e vim para esta casa escura e úmida da onde nunca mais vou sair.
 
 Eu observo as pessoas que passam na rua, observo você. Fico sentada na janela e enrolada no meu cobertor velho, e penso que, um dia, todos vocês vão morrer. Imagino seus sorrisos desaparecendo, suas histórias tornando-se insignificantes. Imagino seus corações frios e sem vida, seus corpos pútridos. Vejo os animais os devorando ferozmente. E os bichos, antes famintos, voltam a sumir na floresta, agora empanturrados, deixando ali a carcaça que um dia foi de alguém. Ele me disse que não há cena mais linda e mais pura que essa. 
 
 Quase não me alimento mais. Uma parte de mim também quer ser parte da poesia. Também quer morrer. A voz dele não me deixa mais. Há momentos que fico com raiva de ouvi-lo: não consigo mais pensar, não sei mais distinguir meus desejos dos dele. Sinto falta da sua carne tão diferente da de qualquer outro. Era fria. Rígida. Quase morta. 
 As vísceras dos pombos não me saciam mais. O sangue não me embebeda mais. Meus cabelos emaranhados e sujos, cheios de insetos, traças, não me alimentam mais. Não tenho mais desejos que sejam só meus. Sinto o cheiro daquelas flores e ouço a voz dele me encorajando a destroça-las com os dentes. Ele diz que também me quer. Eu as como, todas. Eram várias. Preparo mais chá com as que sobraram. Acendo um cigarro e sento na janela. Sinto, de repente, uma epifania: vejo um pássaro morto coberto por formigas, e aquilo me faz feliz, mas também horrorosamente triste. Pensei que fosse encontra-lo de novo. Que fôssemos voltar àquelas noites deslumbrantes de loucura e dor. Que ele recitasse minha doença, que arrancasse minha roupa e me cobrisse com sangue. Achei que ele precisasse que eu comesse as flores para voltar.

Mas o pássaro morto foi a última imagem que vi.

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