jazz

Era a cena perfeita.

Noite fria, algumas poucas pessoas andando por ali. No bairro da Vila Madalena a garoa caía incessante, desde as nove da manhã até aquele momento, doze horas depois. Dos poucos ruídos que se ouvia na estação de metrô, um jazz contínuo era o mais agradável de todos.

Poucos passos até a esquina, procuro de olhos quase cerrados o lugar de onde viria a música — como se o cerrar de olhos refinasse a busca; inútil. Mesmo assim a vejo. Ali, imóvel, no segundo andar de um prédio de apenas dois andares, coroando um boteco quase cheio: a sala de dança.

O jazz era naquele retrato o fundo perfeito para os passos sincronizados dos oito alunos que seguiam, ou pelo menos tentavam, às coordenadas da professora. Um, dois, três, passos. Ziguezague. Um, dois. O molejo invejável das notas musicais destoava das tentativas de bailado dos alunos bem intencionados, mas fazia sentido aquela desorganização. O descompasso funcionava. Aquela sala era a rotina. Aqueles passos, a tentativa incompatível de encontrar sentido na desorganização da vida. Enquanto os passos se davam, pés e cabeças lutavam entre si. Talvez a melodia também fosse o descompasso.

Mas quem dá o ritmo?

Não haveria nada de poético se aqueles corpos dançassem sozinhos, no silêncio. O caos da rotina se encaixa então? Ou estaria apenas a forma resignada? A taciturnidade da vida incomoda. Fomos feitos de balbúrdia. Se não conheço, não me faz falta. O que é a organização uma vez que a própria ordem se confunde, misteriosa, num amontoado de incoerências?

Inquietante é mesmo o ritmo cotidiano das coisas. É assim, como a ordem mais simples de todas: vida e morte. Nascer é só o começo do fim. Se a própria vida é predestinada, seria a morte então o maior acontecimento da vida?

Talvez fosse o jazz. Talvez aquele copo de cerveja. “Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque…” .

As palavras agora se confundem com a música. “Deve ser Nina Simone”, reflito. Que voz, que mulher! Você já reparou nos olhos da Nina? Tem olhos melancólicos. Ela deve saber o valor da rotina, do caos. A música deve ser isso: uma tentativa de organizar o resto. Resto é aquilo que sobra, afinal. É o fim da picada. Você já ouviu a Nina cantar? A Nina cantando, pra mim, parece Vinicius recitando. Faz sentido. Talvez fosse isso que faltasse, um pouco de Nina e de Vinicius. Talvez essa seja a organização das coisas.

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Ouço uma buzina.

Já se passaram 5 minutos. O jazz continua. Mas meu pai chegou. Eu vou. A sala fica ali, como a rotina. Estática. Não era mais uma sala. É a cena perfeita.

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