próxima estação, paraíso

Era segunda-feira. Eu sabia disso por causa do número de pessoas que ocupavam o vagão do trem que, naquele momento, às 10h43, saía da Estação Rodoviária Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, em direção à Itaquera, na leste. Os vagões lotam às segundas. “Às sextas eles são mais vazios. Acho que é porque todo mundo prefere ir de carro às sextas. Estamos cansados”, teorizava, absorta em meus pensamentos. Não havia nada de muito novo naquela cena: algumas senhoras sentadas em seus assentos preferenciais; vendedores ambulantes oferecendo seus fones de ouvido e algumas balas sortidas; outras pessoas encurvadas, trocando mensagens ou admirando feeds através das telas de seus smartphones. Cada qual no seu infinito, enclausurados e conduzidos pela inércia da rotina.

Já na estação República, enquanto tentava me equilibrar entre a leitura de algum livro e o movimento ondulatório e inconstante do metrô, de repente — não mais que de repente — escuto algo que estilhaçou o ir e vir apático. “Próxima estação, Paraíso”, anunciou uma voz feminina e metálica, uma velha conhecida. “Ué… Mas eu não tava na vermelha?”. O pensamento soou em voz alta. De súbito pensei ter pego o sentido errado, mas teoria caiu por terra ao me lembrar de não ter feito nenhuma baldeação durante o trajeto. Olhei para os lados. Os rostos ao redor, agora expressivos, não se preocupavam em negar o estranhamento daquilo. A jovem sentada no assento preferencial à minha frente, que antes dormia em sono profundo, acordou ferozmente. Seus olhos, atentos, pareciam rondar o vagão, investigando a cena. “Tá tudo certo? Ela disse Paraíso? Mas essa aqui é a vermelha, mano!”, perguntou aos ventos, como se não esperasse resposta vinda de alguém — quase sem notar que estava cercada por outros — torcendo o pescoço de um lado para o outro, cenho franzido, procurando alento em alguma conclusão que pudesse tomar por conta própria. “Acho que é falha no sistema”, tranquilizei-a. Mas quase não surtiu efeito: ela logo se levantou. Já ereta, pronta para bater continência, cambaleou um pouco e se dirigiu para as portas do lado esquerdo do trem. “Aonde já se viu? Eu nem sei onde eu tô!”, grunhiu enquanto arrumava alguns fios de cabelo desalinhados.

“Próxima estação, Brigadeiro”. Sentada ao meu lado direito, uma senhora levava no colo uma sacola de plástico cheia de roupas e calçados. Deixou o saco no chão e o encaixou bem no meio das pernas. Tomou fôlego. “Ela tá toda errada, né?”, afirmou em tom sobranceiro, se referindo à voz que anunciava as paradas. Assenti com um sorriso. “Jaja vai falar meu nome aí! ‘Ô Dona Odete, chegou seu destino’”, profetizou, gargalhando logo em seguida. Um senhor sentado na extremidade do carro próximo a cabine do motorista, escutando a conversa respondeu em voz alta. “Acho que vou me atrasar, ein”. “Melhor eu descer agora! Vai que esse trem me leva pro Japão”, gritou da outra ponta do trem um rapaz de 20 e poucos anos. A frase foi seguida de uma longa gargalhada do próprio rapaz. Veio a catarse, tomando conta do vagão. De repente — não mais que de repente — aqueles trabalhadores, senhoras, moças cansadas, vendedores ambulantes e aficionados por feeds, todos obstinados a chegar a seus destinos, estavam rindo de si mesmos e de uma falha técnica do metrô.

Pouco a pouco fui chegando no Belém. “Tchau, Dona Odete! Tomara que seja o lugar certo, né?”, me despedi. “Até, fia. Bom trabalho”. Olhei para o relógio digital: eram quase 11h. “É segunda-feira”, pensei tentando convencer-me. Desci do vagão. Enquanto caminhava em direção às escadas-rolantes, sorri. “Próxima estação, Paraíso… Aonde já se viu?”.

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