Preito ao lixo
Não é tão difícil cumprir um dia constituído majoritariamente de vitórias antes do meio-dia. Meus olhos se abrem com a rispidez gravitacional de uma pena. Encaram a invasão sutil do sol que disputa espaço com as sombras das grades da sacada (o afã cotidiano ainda não me permitiu identificar vencedores na disputa, mas é um belo confronto a ser contemplado). Aos poucos vou assimilando que os estalos úmidos dos ossos do meu pescoço me preparam para as obrigações.
Ensaio um sorriso após o soar pentelho do despertador, vencido por mim, mais uma vez. Higienização, ingestão, estudos. ‘Confere’ dado noutras etapas. A respiração leve, pálpebras relaxadas, cumpri. Dentes quase à mostra de mais um dia quase concluído de uma não concluinte nata.
Presenteio-me com o luxo de cumprimento de prazeres triviais: lavar louças, varrer a casa, passar o pano (sim! Luxo, prazer e trivialidade)… Sempre tem um lixo. Lixo no lixo.
Lixo no lixo! Avisto meu cesto de lixo e altero completamente meu semblante até então extasiado. É impressionante e desesperador o fato de que minha única produção concreta seja o lixo. E demasiado. Observo novamente aquele cesto redondo e lapidado com um conteúdo tão disforme e inconsistente. É inacreditável que esta seja minha arte, minha produção. É minha única produção.
Amarro a sacola com asco paradoxal da minha criatura e me digladio a respeito do que se pode esperar de mim, uma vez que o que possuo de concreto é uma sacola diária cheia de descarte. E não é minha. Uma sacola a ser desprezada, talvez fazendo jus à sua criadora, não importa quão uniforme possa ser seu conteúdo disforme. A certeza que me resta é que nem as sobras me sobram. Elas se vão e se renovam num ciclo violento e intermitente.