Sobre a dança

O poder da dança na vida de uma não-dançarina

Lamento a vida sofrida dos que não se comunicam voluntariamente com o próprio corpo. Ou a vida sofrida dos que se comunicam, mas não se permitem experienciar o sabor do dialeto profanado pelo corpo através da dança, mas ouvir-se por meio dos próprios movimentos é quase essencial à compreensão da frieza da vida que acorrenta os instintos no argumento da rotina gregária.

Deixo claro que o presente texto trata da realidade alheia à comunicação corporal naturalmente presente no cotidiano, nos atos de fala que fluem sem interferência do dono do corpo. Ainda sobre o texto, ela carrega boa parte da primeira pessoa e percorre minhas curvas e frenesi. Repete incansavelmente os vocábulos “corpo” e “dança” e seus possíveis (e talvez impossíveis) derivados ante à tentativa de descrição do extremo prazer que me envolve a dança. E restrinjo a metalinguagem a este parágrafo porque não aguento tamanha invasão.

Dançar é ceder a própria voz ao corpo para berrar “livremente” toda a sensualidade que é latente, mas precisa ser violentamente calada diante das obrigações sociais. O trabalho, acompanhado da seriedade falaciosa do capitalismo calam meus desejos; um cumprimento na fila do pão tem obrigação de ser assexuado. Dançar é mostrar que, apesar do contexto de seriedade que as convenções sociais me impõem, meu corpo exala volúpia, vontades e quebra o silêncio presente numa personalidade negada.

Cadenciar o corpo, associado à melodia e letra externas talvez seja minha expressão máxima de avidez pelo sabor da vida. A própria relação sexual, mesmo a mais extasiante, não carrega tanto significado quanto o motor pulsante e disciplinado que emerge com vigor de meus quadris, chacoalha o torso e se apossa dos membros. A melodia se mistura com o latejo das minhas veias e, embora haja alguém manipulando o som de fora, é como se eu possuísse uma playlist internalizada, que sintoniza com a música e me faz gritar através da compleição física todos os meus desejos.

E sobre desejo… o fato de entregar à minha robustez a voz do desejo, desperta a vontade do outro. Que vira um boomerang e me retorna também como desejo, mas por mim mesma. É um ciclo ímpeto (e infelizmente finito) de sentir fome mim mesma e imediatamente alimentar-me por mim. É a ocasião em que sinto o gosto e dou sabor à vida. Dançar é sorver o mundo do outro com tudo o que há em mim e dar cor ao meu.

Esse ato auto antropofágico aniquila as características do corpo anteriormente interpretadas como defeitos. O peito fora do lugar, a barriga saliente, o esmalte descascando… pouco importa. O conjunto compõe o belo. A sensualidade à qual cedo o corpo consegue cegar a mim e ao outro para a diagramação física mal traçada. Digo: não me há nada feio enquanto me permito dançar.