Vazamento
O vazamento do meu banheiro
É noturno porque a noite é muda
E ironicamente surda.
O vazamento do meu banheiro
É delicado. Uma música aguda,
Leve, sutil, iracunda.
Mas insistente, sinuoso;
Ora longamente pausado na cadência
Das gotas ao montante de água,
Ora frenético, impaciente, louco, fugaz.
Até que
O vazamento noturno do meu banheiro
Se irrita com a atenção que lhe ofereço:
Primeiro grita impacientemente
Abafando todos os ruídos à sua volta.
Depois,
Depois de receber a atenção que julga merecida
Se esvai lentamente
No anseio pela indiferença
Como se eu não notasse o freio contido em cada gota,
Em cada gota
Do vazamento noturno do meu banheiro.
E se esvai tão lentamente
De modo que direciono meus tímpanos
Num suplicante esforço
Para manter o contato
Com o agora não mais existente
Vazamento noturno do meu banheiro.
E ele retorna
Retorna em gotas quase insignificantes
Mas furacões para minhas expectativas
Como se fosse um indício para seu retorno triunfal.
Mas não…
O vazamento noturno do meu banheiro
Vem leve para mostrar quem domina
E que pouco importa se eu o noto
E concluímos a noite infida
Ele: senhor do seu ritmo;
Eu: com os quatro sentidos escravos da audição
Escrava do
Vazamento noturno do meu banheiro.