E.C. Radar representando a Seleção Brasileira

E.C. Radar: a luta e as vitórias do futebol feminino na década de 1980

Maria Guimarães
Mar 11, 2016 · 4 min read

No final da década de 1970, quando a ditadura começava a dar sinais de falência, o futebol de areia feminino começou a virar moda no Rio de Janeiro. Eram diversos clubes com nomes de ruas diferentes do bairro de Copacabana. O crescimento do esporte foi tanto que logo marcas se interessaram e assumiram alguns times, como o American Denim, que reservou um espaço na vitrine de sua loja só para exibir os troféus do seu time feminino. Campeonatos aconteciam e levavam, em média, um público de 4 mil pessoas por jogo (quase igual ao do Campeonato Carioca dos homens de 2016, não é mesmo?).

Nesse meio tempo, em 1979, a lei que proibia as mulheres de jogarem futebol foi, finalmente, revogada. Mas calma, o futebol feminino ainda não estava regulamentado.

Surge a figura de Eurico Lyra Filho, então responsável pelo Belfort Roxo/Gang, ele se juntou ao Esporte Clube Radar (clube fundado em 1932) e, em 1981, fundou o primeiro time feminino do clube.

O começo foi na praia e o time já contava com patrocínios de peso, e tornando Radar/Le Coq Sportif, Radar/Unibanco, Radar/Mondaine, entre outros. Porém, nem sempre (ou quase nunca) o dinheiro dos patrocinadores chegava às mãos das jogadoras.

Em 1982 surgiu, no campo, o maior clube brasileiro de futebol feminino. Ao montar o time, Eurico tinha um plano claro: regulamentar o esporte, criar campeonatos e então uma Seleção Nacional Feminina. E ele conseguiu.

Conseguiu, muito provavelmente, sem pagar salários as jogadoras. Apesar do bom investimento dos patrocinadores, consta que em 1984, eles pagavam salários entre 45.000 e 60.000 cruzeiros para as jogadoras. Mas muitas desconhecem esse fato. Reconhecida era apenas algumas gentilezas que Eurico fazia, como ajuda de custo para as jogadoras que viviam em comunidades distantes e ajuda para conseguir emprego para familiares.

Uniforme utilizado pelo E.C. Radar

Mas elas lutaram. Sem ganhar, mas vendo a esperança de receber no futuro, treinavam mais de 3 vezes na semana e começaram a participar de campeonatos. Primeiro, o Campeonato Carioca organizado pela FERJ e, logo depois, a Taça Brasil organizada pela CBF. E aí o time começa a entrar para a história.

O primeiro time do Radar a entrar em campo foi escalado com Meg, Pelezinha, Fernanda, Cláudia, Maradona, Maria Helena, Elza, Fia, Celinha, Rata e Salaleto e nunca perdeu uma Taça Brasil, foram seis consecutivas até o campeonato ser extinto (1983, 1984, 1985, 1986, 1987 e 1988). Foram mais seis campeonatos cariocas: 1983, 1984, 1985, 1986, 1987 e 1988. Em 1989, não passou em branco novamente, conquistou o Torneio Brasileiro de Clubes.

O time foi tão dominante que foi chamado para disputar campeonatos no exterior e preparem-se para os números: 71 jogos internacionais, 66 vitórias, três empates e apenas duas derrotas. Em 1988, o Radar chega ao auge: o time passa a representar a seleção brasileira. E no primeiro campeonato, Torneio Mundial de Futebol Feminino da China, fica em terceiro lugar.

Infelizmente, o tempo entre o auge e o fim foi curto. Em 1990, depois de campeonatos esvaziados, nenhum apoio da mídia e pouca (ou quase nenhuma) remuneração para as jogadoras, campeonatos deixaram de ser organizados e o Radar encerrou as atividades do time feminino. Mas o legado permaneceu vivo: a seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1991 teve como base o Radar. Até 1996 víamos jogadoras do Radar pelo time, como a icônica goleira Meg.

Meg (dir) vestindo a camisa número 1 da Seleção Brasileira

Por isso, no mês das mulheres, temos o dever de lembrar a história do time mais vitorioso que o futebol feminino brasileiro já teve. Afinal, o Dia da Mulher não é sobre distribuir flores. É sobre lutar por direitos para as mulheres e também para relembrar, agradecer e celebrar quem já lutou por esses direitos.

Vamos celebrar o E.C. Radar. Agradecer pela luta, pela insistência, pela força de vontade quando o retorno financeiro era ainda pior do que é hoje. Obrigada por continuarem, por tentarem, por vencerem. Obrigada por abrir caminhos para Martas, Critianes, Formigas. Obrigada por abrirem caminho para todas nós.

Maria Guimarães

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Publicitária, empreendedora e feminista. Uma das sócias do 65|10, empresa de ativismo criativo que visa melhorar a representação das mulheres na publicidade.