Qual a importância de uma mulher protagonizar o filme mais amado pelos nerds?
Rey e a luta contra o machismo nerd.


Sim, contém vários spoilers.
Vou começar fazendo uma daquelas afirmações categóricas: a maioria dos homens nerds adora Star Wars. Aproveitando o embalo vou fazer outra: o machismo no universo nerd é inegável. E, para evitar confusões, mais uma: nem todo homem nerd é machista. Errei em alguma das frases? Acho que não.
Para dar embasamento para a segunda afirmação, caso tenha surgido alguma dúvida:
- ser mulher no universo das exatas é extremamente difícil, basta ver que 79% das mulheres em cursos ligados à tecnologia no Brasil desistem ainda no primeiro ano de faculdade. A maioria por conta do assédio e ameaças vindas de professores e colegas de classe;
- ser mulher que programa é difícil. Ser mulher gamer também. Ser uma mulher que denuncia tudo isso é ainda mais, que o diga Anita Sarkeesian, feminista dona do canal Feminist Frequency, que ousou criticar a misoginia na cultura gamer. Sabe o que aconteceu com ela? Passou a ser ameaçada de morte. Quando convidada para debater no SXSW, o tom da ficou ainda mais "grandioso": ameaçaram colocar uma bomba durante seu painel no evento. Outra mulher constantemente ameaçada por ter ousado falar sobre o machismo nerd é a brasileira Lola Aronovich.
- um grande aliado do machismo nerd é a própria tecnologia: escondidos por trás do anonimato da rede, eles usam tudo que sabem para investigar a vida das mulheres que lutam contra eles. Expõem fotos, dados pessoais, endereço, telefone e as infernizam com ligações e ameaças por todos os lados. Existem inúmeros fóruns, chans, grupos secretos que vivem de fazer da vida dessas mulheres um inferno.
Dito isso, vamos voltar a Star Wars, uma das sagas mais importantes do cinema (eu ousaria dizer a mais importante, mas acho que já esgotei meu número de afirmações categóricas de hoje) que é intimamente ligada ao universo nerd. Mais especificamente vamos falar sobre o último filme, O Despertar da Força, protagonizado por, veja bem, uma mulher. E não é uma princesa (até porque a princesa virou general, pá!), é por uma mulher jedi: Rey. Além de ser uma jedi, ela gosta bastante de tecnologia, mecânica e sabe pilotar como poucos.


Portanto, no principal papel do lançamento mais importante do ano, temos uma mulher. Uma mulher cuja trama não passa apenas por ser o interesse amoroso de um homem ou ser objetificada por uma dezena deles. Mas uma mulher que luta. Uma mulher designada a salvar o mundo a partir da sua inteligência e força.
E aí, finalmente, entra a pergunta do título: qual a importância de uma mulher protagonizar o filme mais amado pelos nerds?
Primeiro, a importância de influenciar meninas a quererem ser guerreiras fortes designadas a salvar tudo e todos. Depois, influenciar meninos, mostrando que mulheres são fortes e capazes de salvar todo mundo, inclusive os homens.
Por fim, e o que me parece mais importante, Rey vai ter o papel de mostrar para toda uma geração nerd guiada pelo machismo e que acha que mulheres não podem ser parte do mundo deles, que elas podem sim. Podemos. Se Rey pode pilotar a Millenium Falcon, mulheres podem trabalhar com tecnologia. Se Rey pode ser jedi, mulheres podem ser gamers. Até porque se Kylo Ren perde dela na luta de sabres, homens também podem perder, sem vergonha nenhuma, de uma mulher em Call of Duty. E tem outra: se Rey não precisa que Finn segure a mão dela, não é preciso segurar a mão de nenhuma mulher que não queira ter a mão segura.


Claro que precisamos mais do que um filme para mudar um cenário tão difícil como é o do machismo no universo nerd, mas ter ao nosso lado o filme que tem tudo para se tornar o mais visto de todos os tempos no cinema é, ao menos, um alento. Afinal, em um filme que passou no Teste de Bechdel, Rey nos dá a oportunidade de levar todas essas mensagens para um número grandioso de pessoas.
Aos machistas que ainda insistem em lutar contra a igualdade de direitos e oportunidades entre os gêneros, deixo essa dica: “A Força está chamando por você. Deixe-a despertar”.