A experiência de relacionamento livre e sem regras
A versão dela
Inspirada no texto da Catarina Mesmo resolvi contar um pouco sobre o meu relacionamento livre. Vou chamá-lo de livre ao invés de aberto, porque ele é meu e eu chamo ele como eu quiser.
Também passei por vários relacionamentos monogâmicos, baseados no sistema de posse (se ainda não leu sobre a construção social dos relacionamentos no formato que conhecemos hoje, recomendo ler antes de continuar!). Após 3 anos que estava solteira sem aparecer ninguém que me chamasse a atenção, apareceu João.

João tinha acabado de sair de um relacionamento longo. Eu não tinha a mínima vontade de me envolver com uma pessoa nessa situação. Eu nem sabia direito se queria me envolver. Medo de perder toda liberdade adquirida. Perder a leveza da vida solteira. Perder o poder de ir para onde quiser e sem precisar de ninguém. Aprender a viver sozinha foi um trabalho deliciosamente doloroso. Isso mesmo, a solidão dói, mas ao mesmo tempo ir se divertir sozinha é um processo maravilhoso de autoconhecimento.
A gente saiu durante seis meses. Tínhamos combinado de apenas nos divertir. Saíamos todas as semanas, e falávamos todos os dias. Conversamos muito sobre os relacionamentos passados, sobre o que gostávamos e o que não gostávamos. Entre as conversas, o tema relacionamento aberto aparecia as vezes com curiosidades por parte dos dois. Até que então… Os encontros de semanais passaram acontecer a cada dois dias e começaram a surgir planos: “você precisa conhecer esse bar, na próxima vamos lá”, “queria viajar”… Quando notamos estávamos em um relacionamento.
Regras construídas: Cada relacionamento é o que as pessoas que estão nele precisam que o relacionamento seja
Essa ideia é bem simples. Independe do tipo do relacionamento que você está. Cada relacionamento tem regras. Cada relacionamento tem uma lista invisível de coisas que seria uma traição fazer sem o consentimento do outro, seja assistir o último episódio de Game of Thrones sem o outro, seja voltar tarde para casa ou até comer aquele chocolate que um estava guardando. Quando se escolhe por um relacionamento monogâmico, parece que já sabemos um conjuntinho de regras que precisamos respeitar, mas não é bem assim também.
Dentro de um relacionamento monogâmicos há aqueles que não ligam que seus companheiros tenham amigos independente do sexo, há aqueles que ligam. Existem aqueles que querem dedicação exclusiva de um para o outro. Enfim, eu não estou aqui para julgar qualquer tipo de regra. A questão é que qualquer relacionamento passa por esse processo de descobrir os limites do outro e entender as “regras” que funcionam melhor para o caso de cada um, independente se monogâmico, aberto, poliamor…
As regras que escolhi foram baseadas em princípios de liberdade. Na verdade não são exatamente regras, é atender as nossas necessidades : emocionais e afetivas atuais, mas que essas necessidades podem ser diferentes amanhã. Elas vão aparecer no meio do texto e não vão vou fazer uma listinha, pois elas não são fixas e nem recomendo que apliquem. Como falei cada relacionamento tem suas nuances e suas necessidades.
Test-drive para ser uma família
Eu tenho consciência que não consigo nem manter vários grupos no whatssapp, nem sou a pessoa de um milhão de amigos. Nunca fui e nem sinto vontade de ser. Então seria contra natural eu instaurar um poliamor na minha vida. Eu simplesmente não consigo nem dar atenção suficiente para mim, quanto mais para mais de uma pessoa. Então decidi que o João era a pessoa com quem eu estou construindo algo. Quando eu ficar doente eu quero que ele esteja do meu lado, a pessoa que eu vou apoiar e fazer coisas para deixar a rotina mais leve, mais dividida e gostosa.
Parece que nascemos em uma família, nossos pais, que nos deram todo esse apoio durante anos, e de repente as necessidades mudam, as gerações pensam diferente e você tem a oportunidade de escolher novas pessoas para fazer esse papel também, para pertencer a sua família. Novas pessoas para te acompanhar e para te ajudar a chegar no seu destino pessoal. O João é essa pessoa para mim, ou melhor estou fazendo um test-drive com ele.
Isso definiu a primeira regra que concordamos: existe nós e existe a vontade de ficar com outras pessoas. As duas podem existir no mesmo mundo. A gente pode ficar com outras pessoas e ao mesmo tempo se dedicar nas nossas construções juntos. O que resumidamente acaba implicado que as pessoas que a gente se relaciona é para nos divertir, aprender coisas novas e depois voltar para casa.
Lealdade
Falando em alguém que você quer construir e que te ajude se desenvolver na sua vida, o que a gente faz com essa pessoa? Você fala tudo. Fala do almoço, fala que está com cólica, fala da tia-avó que não gosta, fala que gosta de tomar banho de manhã porque isso deixa o seu cabelo mais bonito. Você fala. Comunicação é o que permite o desenvolvimento. Comunicação permite nos conectar com o outro e ajudá-lo a enfrentar os seus monstros pessoais. Por isso escolhemos contar tudo. Sempre que ficássemos com outras pessoas. Basicamente nos comprometemos com a lealdade e acredito que isso foi fundamental para todo o processo que o relacionamento aberto nos proporcionou.
As primeiras falhas na Matrix: não ficar com ninguém do rolê
Uma regra que definimos era não ficar com ninguém do rolê. Afinal, se o fizéssemos estaríamos criando vínculos com essas pessoas.
Ele já tinha ficado com outras meninas antes e me contado e vice-versa. Lembro que sempre que ele me contava eu me sentia bem. Sentia bom podermos falar realmente sobre tudo.
O João saiu um dia e ficou com uma amiga de um amigo.
Nesse dia o que eu senti foi: “O que os amigos deles pensam sobre ele fazendo e o que pensam de mim?”. Vivemos em sociedade. Uma sociedade fundamentada em privilegiar as conquistas dos homens e privar as mulheres. Temos muitos amigos bem conservadores, não queremos mudar a opinião deles e também acreditamos que podemos sermos amigos de pessoas que pensam diferente da gente. Mas esse pensamento me incomodava. Conversamos. Falei como eu tinha me sentindo, que a gente não podia evitar esses pensamentos dos nossos amigos. Resumidamente que para a mulher era mais foda. ( Não vou me ater a explicar as diferenças de gênero nas composição de relacionamento, vou deixar uns links de textos que acho muito bons sobre isso 😉 ). Enfim, ele entendeu, se desculpou e ficamos bem.
Obviamente encontrei essa menina em um rolê na casa dos amigos depois. Fiz questão de deixar claro e falei para a anfitriã em um momento oportuno “Ah, o João falou dela já, eles ficaram quando vocês saíram aquela vez lá…”. A anfitriã se sentiu primeiramente um pouco mal e depois tranquilizei falando que eu não me importava que estava tudo bem. Percebi que ela ficou meio sem entender como alguém ficava bem ao saber que seu companheiro ficava com a outra pessoa. Muitas pessoas não entendem isso bem, mas elas não precisam entender, na minha opinião. Cada um pensa de um jeito, só precisamos respeitar mesmo o jeito de cada um. Acho que por fim ela respeitou.
Álcool: A alquimia para desentendimentos e interpretações erradas
Gostamos de fazer as coisas que gostamos de fazer com as pessoas que também gostam. Tipo quando você e alguém gosta de rock, vocês vão ouvir uma banda de rock junto. Isso é natural. Então se gostávamos de ficar com outras pessoas, porque não fazer isso juntos também? A ideia de ménages sempre esteve entre as nossas conversas. Sabíamos que ia acontecer. Eu sempre gostei de ficar com meninas também. Era natural para mim, era algo que eu achava tesão, ir para uma cama com uma mulher. Ir para cama com uma mulher e mais o João me parecia um sonho.
Um dia saímos em uma balada LGBT com os amigos do trabalho dele. Amigos dessa vez com afinidades ideológicas mais parecidas com as nossas, que nos sentíamos mais à vontade em relação essas questões com eles. Bebemos muito. Tipo muito. Muito mesmo. Uma menina do trabalho do João estava dando em cima dele absurdamente. Foi a primeira vez que senti ciúmes. Foi doloroso. Eu comecei a lutar com esse sentimento. Porque queria ser melhor e acreditava que superar me faria uma pessoa melhor.
O João saiu um tempo da pista de dança. Comecei a dançar com essa menina. Quando ele voltou, ele pensou que eu tivesse ficado com ela. Estávamos bêbados. Ele não sabia que eu estava surtando de ciúmes internamente. Ao ver nós duas mega juntas e todo o álcool… Ele pensou “vai ser hoje o ménage” e coincidentemente a menina automaticamente desgrudou de mim e grudou nele.
Ela beijou ele. Ele beijou ela. Eu saí da pista de dança em destino de casa.
Na minha cabeça ele tinha descumprindo com a lei de não ficar com ninguém do rolê. Na dele íamos realizar uma das coisas que queríamos fazer.
Precisou de muita conversa e dias para entendermos o que aconteceu. Ficamos bem. Passei por muitas inseguranças nos meses seguintes, uma vez que a menina trabalhava com ele. Falei de todas inseguranças e ele destruiu todas. Foi me dando mais segurança. Até que em um dado momento que não existia mais inseguranças.
Paixonite aguda
Tinha um menino de outro estado que conheci no Tinder antes de estar com o João, e que eu nunca tinha ficado. Acontece que ele veio morar em Curitiba. Não conhecia ninguém e me contatou para dar uns rolês. Falei para o João. A ideia que eu pensei foi: posso ser amiga dele, porque não? É…
Saímos, foram daquelas conversas que a gente não consegue parar de falar e não quer que acabe por nada. Não ficamos. Fomos saindo algumas vezes. Sempre a piadinha que nos conhecíamos no Tinder quando apresentava para todo mundo. Saímos algumas vezes com o João junto também. No meio das conversas com ele, em certa noite, percebi que queria beijá-lo. Só queria. Sentia.
Decidi que não ia fazer isso porque eu ia ficar confusa. Não ia ser só diversão para mim. Já existia algum sentimento ali. Queria, mas reprimi esse sentimento pois como falei lá em cima, sabia que isso ia afetar o jeito que me relacionaria com o João. Contei tudo isso para o João e para o menino do Tinder. Primeiramente o João falou que eu podia ficar com ele. Na verdade, em nenhum momento ele falou que não podia ficar, mas ficou inseguro, com autoestima baixa em outras palavras sentiu ciúmes. Sentiu ciúmes de alguém que eu não cheguei a ficar, enquanto que com outras pessoas que fiquei esse sentimento não tinha surgido.
Conversamos muito nessa época também, sobre o significado dessas palavras: ciúmes, insegurança e autoestima. Da importância delas nas nossas vidas. Quem estava lutando dessa vez para não sentir ciúmes e para se sentir bem era ele.
Amantes da liberdade queríamos poder passar por isso. Percebemos, então, que ainda não estávamos prontos para esse “passo” a mais*. Na verdade, percebemos que não existe estar pronto, que talvez não exista nenhuma meta que precisávamos alcançar, que as coisas podiam se modelando com a gente, com o tempo e se necessário. Descobrimos que não era nenhuma corrida de ser mais evoluído ou poder lidar com várias pessoas, e que sentir ciúmes não fazia da gente pessoas melhores ou piores. A prioridade é ficarmos bem, os dois.
*passo a mais: se relacionar com outras pessoas que não fosse só diversão de um dia, mas sim casos…
Ménage
Teve experiências dolorosas como vocês viram, que aprendemos muito sobre a gente e teve experiências maravilhosas. Entre elas fizemos o tal ménage. Foi com mais uma menina. Não senti ciúmes em nenhum segundo. Acho que fiquei vidrada na menina tanto quanto ele. Foi super divertido e gostoso. Depois que aconteceu me vieram aqueles pensamentos sobre o tradicional fetiche machista com lésbicas. Quase como se tivesse lido os meus pensamentos ele falou “me pareceu mais fácil na prática, parece possível até com mais um homem e você”.
Cada pessoa é um indivíduo com interpretações singulares de um evento
Se o João tivesse narrado toda essa história, com certeza seria diferente a narração. Com certeza que quando ele ler pode ter partes que ele discorde um pouco do jeito que escrevi. Acho que essa é a magia de um relacionamento livre. Aprender a respeitar as necessidades, o jeito de pensar de cada um. Entender que por mais que pareça que estejamos de acordo sobre um ponto, as motivações de cada um, a experiência de cada um é singular. Eu nunca posso esperar que o João pense igual a mim e vice-versa. Isso é libertador. O que me motiva em um relacionamento aberto pode ser bem diferente do que motiva ele e mesmo assim podemos fazer funcionar.
Relacionamentos monogâmicos têm problemas assim como relacionamentos abertos.

Doeu e ainda vai doer. Porque eu estou disposta a sentir e sou livre para sentir. Todos os relacionamentos têm problemas. Quero que me diga quem nunca viu os pais ou familiares se desentendendo. Podemos escolher alguns problemas que vamos passar. Não sabia que ia passar por essas coisas que contei até aqui, mas quando olho essas experiências que passamos, até as dolorosas, e de como isso proporcionou entrar em contato com os nossos sentimentos, questionar as origens deles e transformá-los, fico muito feliz. Porque cada problema foi uma reconstrução, que permitiu entender o jeito que fomos programados a sentir desde pequenos pela educação que recebemos, refletir, desconstruir e construir do nosso jeito. Eu acredito que isso está sendo possível devido a comunicação que temos um com outro e por tratarmos cada um como indivíduo.
Relacionamento livre
Como iniciei esse texto chamando esse relacionamento de livre, isso é porque o relacionamento não gira em torno de ficar com outras pessoas, vejo isso só como um bônus de toda a questão do nosso relacionamento. O que a gente está fazendo é um monte de coisas que gostamos, ir no bar de rock, assistir Game of Thrones, planos de morar juntos, encontros de família, montanhas, viagens e ficar com outras pessoas as vezes também. Ninguém está numa corrida de marcar pontos e competição. A prioridade é nós mesmos. Então se em algum momento um dos dois não se sente bem, é só comunicar, que reconstruímos algo.
Links de leituras que acho interessante:
- Por que o poliamor e as relações livres podem ser privilégios para os homens
- Os relacionamentos amorosos na contemporaneidade sob a óptica dos adultos jovens
Obs: Eu e o João estamos juntos há quase 2 anos na data que esse texto foi escrito.
