Texto íntimo

Mariana Farias
Sep 7, 2018 · 8 min read

AVISO: esse texto vai ser longo e ele diz sobre mim, ou seja tem grandes chances de não ser de interesse de ninguém. Teje dito.

“Meu querido,
Encontre o que você ama e deixe-o te matar. Deixe drenar você de tudo. Deixe-o agarrar-se às suas costas e enfiá-lo no nada. Deixe isso te matar e deixe que ele devore seus restos. Pois todas as coisas vão te matar, devagar e rápido, mas é muito melhor ser morto por um amante.
-Falsamente seu”
C.B.

Eu quero compartilhar a maior desconstrução que eu venho fazendo ao longo da minha vida (sim, da vida), o repensar o que é o trabalho, que possui como origem a palavra “tripalium” que era um instrumento de tortura, na história, o principio dessa ideia de trabalho era associado aos pobres, pessoas da nobreza não trabalhavam, era algo ruim. Hoje em dia esse conceito mudou radicalmente e se tem o trabalho como base essencial da existência humana e são vistos com maus olhos aqueles que não os tem. Questões políticas e socioeconômicas não vêm ao caso nesse momento.

Eu sempre fui uma boa aluna, ponto, não tem nada de arrogante em admitir isso, na faculdade é mais difícil ser excelente, mas nos primeiros anos da escola apenas notas altas, a primeira a aprender a ler e escrever e eu nunca dei trabalho (eu lembro que uma vez taquei água em um menino que estava me infernizando e fui pra diretoria, mas fui liberada por ser réu primário e o peste realmente era uma peste, ele que levou toda culpa, justo.) enfim, o aprender, conhecimento, os livros sempre foram uma paixão.

Eu preciso confessar, na quarta série um professor falou com meu pai “Ela é ótima, mas é péssima com matemática” isso se prolongou até hoje, os números representam uma linguagem que eu respeito e admiro mas nunca me chamou muito atenção e nem me despertou grande interesse. Quem sabe um dia.

A verdade é que eu sempre amei as chamadas “ciências” na escola (sabemos que são as ciências da natureza já que na escola não temos a ideia de geografia, história como “ciência”, discussão importante, mas pra outra hora). Eu nunca me esqueci do meu primeiro contato com a biologia na sétima série, Marisa Poletto é o nome da professora que estava ensinando sobre o fantástico universo do corpo humano e seus sistemas, reprodutor, digestório e afins, eu lembro de ficar completamente apaixonada por aquilo, ainda sem nenhuma perspectiva de profissão, não era tempo para aquilo mas eu tinha o sentimento que eu adoraria saber mais sobre o assunto e me afogar cada vez mais pelo mundo da biologia, e assim o fiz.

No primeiro ano do ensino médio eu conheci uma professora que não era muito mais velha que a gente, Larissa, uma fofa ela me adorava e o sentimento era recíproco, ela falava sobre assuntos que eu nem me lembro mais, exceto quando ela abordou o tema “ecologia”, as formas de interação entre o meio natural comensalismo, mutualismo, predação afins, quando eu fui apresentada a esse mundo eu fiquei vidrada todos morrendo de preguiça da prova e eu devorando o conteúdo com muito tesão, a aula sobre poluição foi um choque eu precisava pra minha vida. Mas, foi uma chama que nasceu e ficou guardada, a explosão viria um tempo depois.

No segundo ano do ensino médio, apareceu o careca bombado que eu confesso que subestimei, mas é o melhor mestre de física que alguém pode ter. Eu tenho uma ligação muito forte com alguns professores mesmo que eles nem façam ideia, poderia escrever horas e horas como cada um me marcou mas tentarei ser breve. FÍSICA. O cara me ensinava física, eu a péssima em cálculo completamente vidrada no conteúdo, lembra do amor pelas ciências? Então, segundo ano do ensino médio, a maior certeza da minha vida era que eu nasci pra ser astrônoma, sim, é até engraçado lembrar disso, mas eu realmente me interesso por esse assunto, e quem sabe um dia eu não embarque nessa… A física é uma chapação consciente que me deixa muito louca, cosmos, coisa irada.

Minha certeza da física foi destruída quando eu fiz uma prova nacional de astronomia (sim, eu juro) da qual eu sabia absolutamente nada, mas foi muito no pulo também, enfim, god knows I tired e pouco tempo depois o prof foi embora e entrou um que não me dava o menor animo pra física, meu amor virou ódio em questões de bimestre.

A única que nunca me chamou atenção foi a tal da química, que eu inclusive apanho até hoje na faculdade, mas, no ensino médio quando se pensa o que você pretende fazer da vida meu tripé era: biologia, física e geografia. Eu trabalhava na época com gráfica, engenharia do produto que me dava muito conhecimento administrativo e empresarial mas não me despertava nenhum interesse.

Até que eu decidi que estava na hora de fazer um curso técnico (eu sempre fui muito independente em relação aos estudos, perguntem a mamãe) ah, na verdade esqueci de contar de algumas tentativas da minha mãe em me por no ramo da tecnologia, web designer (gente eu tava na oitava série eu acho isso um absurdo até hoje eu queria morrer com os exercícios de digitação, eu digito com a porra do dedo que eu quiser, saco!) voltando, ela tentou me enfiar pra fazer informática para internet também, nunca fiquei tão feliz por não passar em uma prova, imagina.

Zapeando pelas opções eu fiquei muitíssimo interessada em fazer um curso de petróleo e gás, mas só achei cursos pagos e não queria dar despesas para minha mãe, pois mesmo que eu trabalhasse na época nunca que daria pra pagar. Até que meio despretensiosa eu encontro o curso Técnico em Meio Ambiente da ETEC, perto de casa, eu já estudava de manhã e trabalhava a tarde mas um curso a noite eu iria aguentar tranquilo (eu sempre fui muito de querer fazer tudo de uma vez, deve ter sido a escola de tempo integral desde a segunda série, não sei), eu não sabia exatamente o que iria encontrar no curso mas fiquei com os olhinhos brilhando, marquei a prova (que ia acontecer em breve por sinal) e fui. Passei.

Entrar no técnico foi sem dúvida umas das coisas mais importantes que eu fiz, eu me sinto muito privilegiada é verdade pois antes de terminar a escola eu já tinha encontrado um rumo, não sabia exatamente como, mas eu sabia que a minha área era a ambiental. Todos os campos, experiências, laboratórios me ampliaram para um universo que hoje, 4 anos depois eu me sinto cada vez mais apaixonada.

Essa sou eu na foto, em uma das trilhas em Paranapiacaba para conhecer melhor a Mata Atlântica, impactos do turismo, paisagem, espaço e Cubatão. Olha o sorriso, eu sou o que a gente brinca de gestora ambiental “raíz”, tem os de escritório, laboratório, o meu negócio é mato, sempre foi, tanto como contempladora como estudiosa ir à campo sempre foi uma das coisas mais legais que eu fiz e faço até hoje.

Eu era cheia de declarações abertas quando eu comecei o técnico, eu amava, mesmo, era e ainda é uma paixão, até mesmo a parte burocrática e administrativa que faz parte de todo processo. A foto é de 24 de maio de 2015, fomos à Itú, ver as formas geológicas do Parque do Varvito, o museu de energia, foi muito legal, mesmo, se divertir com o estudo, trabalho é o maior barato. E eu desejo para todos.

Enfim, em 2016 eu realizei um dos meus maiores sonhos, entrar na faculdade, com mérito de ser na USP ou não, eu me dediquei muito nos meus 3 anos de ensino médio. O curso, Gestão Ambiental, eu nunca tinha escutado falar, mas ele foi o modo que eu encontrei de lincar a biologia, geografia e física que eu sempre gostei, por mais que eu amasse todas elas, eu sempre fui interdisciplinar e o curso supre isso de querer saber um pouquinho de tudo e ter uma visão mais ampla para atuar. E mesmo com a alta demanda, sentimento de impotência que acontece aqui e acolá eu amo, amo. Entender as dinâmicas sociais, ambientais, econômicas como elas são inseparáveis… papo de bar, esse texto vai ficar muito longo. Basta entender que meu estudo, meu trabalho são as maiores realizações e a maior graça disso tudo é sentir que eu poderia sim fazer outras mil coisas, mas eu não me vejo fazendo mais nada.

Eu escrevi isso no instagram dia 1 de dezembro de 2015. É mesmo tudo um processo…
Hoje foi um dia interessante pra mim, e se não importam queria comentar sobre ele (senão quiser saber não to nem aí também).
Na escola, todos os colegas esquecem divergências de um ano todo para se confraternizarem… E isso é lindo, saber perdoar é uma das virtudes que a cada dia mais eu procuro aperfeiçoar, também teve o provão que me fez ver como o ensino é realmente fraco, como as coisas precisam mudar e as pessoas precisam enxergar mais e isso causou um pensamento sobre talvez minha maior frustração desse ano: não conseguir estar na faculdade ano que vem (claro que é uma parte minha culpa). -
EU NÃO FAZIA IDEIA, MAS TINHA PASSADO NA PRIMEIRA FASE E NO FIM, ACABEI ENTRANDO NA FACULDADE. Mas até aí, sou jovem e tenho todo o tempo do mundo (Você ainda tem Marianinha, ainda tem...).

MEU PRIMEIRO DIA NO “NEW JOB”, caraca, meu segundo emprego, mas fazendo o que eu gosto de fato, e isso está sendo fantástico pra mim, desde o estágio até ser contratada de fato, um passo de cada vez.
Apresentação do meu TCC da ETEC, umas das melhores coisas que me aconteceu na vida eu amei, conheci pessoas fantásticas e tive certeza do meu futuro (que quem me segue sabe muito bem kkkkkkkkkkk). E então, é o fim, dezembro o melhor mês do ano e estou encerrando o ensino médio, estou terminando um curso técnico e no meu segundo emprego, já na área que eu escolhi atuar.
Eu queria definir um sentimento, mas eu acredito que felicidade é um estado, mas algumas coisas na vida fazem com que esses momentos apareçam mais, então nesse momento eu estou feliz. Conheci pessoas que vou levar pra sempre, e outras que preferi me afastar, vou procurar me livrar de pessoas que não gostam de mim e me fazem mal até hoje, atingi objetivos com excelência, e minha única decepção será superada e conquistarei no ano que vem.
Acho que to de T.P.M e é dezembro, daqui a 26 dias, eu completo 17 anos de vida, só isso, e tudo isso rolando e parece que não dá mais pra fugir tá na hora de crescer, e eu sinto que estou indo muito bem nesse mundão louco. Então tudo bem, é isso. Talvez eu apague esse texto ridiculo, ou não. 🙋🏻
Look do dia: crachá do Dante!”

Eu ainda acho que estou indo bem nesse mundão, que a passagem e o processo são formidáveis, estou com uns quilos a mais, espinhas a mais e ainda bem que eu não apaguei o texto ridículo e agora eu faço eles com mais frequência. Mas de tudo isso, acho que a coisa mais importante que eu venho aprendendo como a vida não é um copo meio cheio ou meio vazio, é um copo bonito.

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    discípula da antropofagia psicodélica, tropicalista e subversiva.

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