Tempo de partir

Abri o cadeado e encarei a mala vazia. Era como se nas próximas horas eu fosse fazer o exercício de refletir sobre o que é realmente essencial para mim. E eu, obviamente, acabei pensando em muito além da minha botinha preferida ou meus lenços-xodós.

Eu pensei nas miniaturas de tartaruga que guardo na minha prateleira. São duas, uma azul e uma rosa clara, que ganhei quando criança da minha avó. Assim que eu ganhei a primeira, de imediato eu lancei “que linda, eu quero outra” — olha a mini eu já inserida nessa lógica bizarra de quero-sempre-mais. Minha vó me deu outra muito tempo depois, em outro momento que ela achou que cabia ganhar a mini tartaruga. E elas estão comigo desde então.

Pensei também na minha cabeceira. Materialmente falando, ela é mais recente na minha vida que as tartarugas. Mas acho que penso em cabeceira como a ideia de “espaço-do-lado-da-sua-cama-que-você-deposita-seus-últimos-pensamentos-antes-de-dormir”. O que tanto deixei na cabeceira nesses últimos anos, nessa casa, nessa cidade? Posso levar comigo? Quero levar comigo?

Olhei pro teto e lembrei daqueles adesivos de estrela que a gente colava e brilhavam no escuro, que eu tinha só no meu antigo quarto. Na época, eu dormia em uma beliche e elas ficavam bem pertinho de mim. Minha cabeceira era aquele meu céu particular.

Abri o armário de sapatos e me deparei com minha sandália de salto. Eu tenho pouquíssimos saltos, não gosto. Eu só uso quando sou socialmente obrigada. E isso acaba trazendo momentos bem específicos que estou com ela. Casamentos, formaturas, fins e inícios de ciclos. Que vontade de levar esse sapato desconfortável só para poder olhar para eles e lembrar de mim bêbada não se preocupando nem um pouquinho com essas dores no pé.

Lá no fundo do meu armário, quase esquecida, minha câmera fotográfica. Eu fiz um curso de fotografia e mal usei, mal dei prioridade para um a coisa que me faz tão bem e que eu gostaria tanto de desenvolver mais. Já coloco na mala. Antes mesmo das meias e da escova de dentes. Ela é mais importante.

Olho para a minha estante de livros e libriana que sou um conflito latejou em mim: e agora, quais eu levo?

“As cem melhores crônicas brasileiras”: sim! eu vou sentir tanta falta do Brasil.

“As veias abertas da América Latina” caramba, não parei para ler isso até hoje. Esse vai com certeza.

“Agenda de 2015” Reciclagem, eu sou muito acumuladora de coisas. Mas ah, eu escrevi coisas importantes aqui, e se tiver memórias e coisas legais de lembrar? Tá bom, ela fica, mas fica aqui nesse quarto e não vai na mala.

Vou refletir sobre três itens da prateleira a cada três peças de roupa que eu colocar. Vou intercalar para ver se faço isso mais rápido.

Pensei nos cheiros de tudo. Do meu quarto, da minha comida com meus temperos, da rua. Não vai dar para levar nada disso. Vão ser todos cheiros novos.

E aí então que eu comecei a perceber que não importa o que eu levasse, todas essas coisas iriam adquirir um novo gostinho, um novo cheiro, um novo significado para mim. A mala pareceu tão pouco importante. O que eu levo no meu coração para aguentar toda essa transformação e mudança?

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