Uma casa e uma cadeira de rodas

Em quatro anos de Direito, aprendi que o que eu escuto o professor falando em sala de aula não serve para todo mundo. Aprendi que o Direito, mais que tudo, sustenta o sistema desigual e injusto que a gente vive, porque, na grande e esmagadora maioria das vezes, só serve para quem pode pagar.

Há três anos me tornei membra do Departamento Jurídico XI de Agosto, que presta assistência jurídica gratuita para população de baixa renda, e eu senti de perto a dificuldade de lutar por acesso à justiça para pessoas que muitas vezes não sabiam nem que tinham direitos. Honestamente, acho que perdi e me decepcionei até mais do que eu imaginava, como se a cor da sua pele e o lugar que você mora já definissem de antemão um milhão de obstáculos.

Em que pesem as dificuldades de um mundo que se esforça para excluir ainda mais quem já é excluído, ano passado, eu conheci uma família que não imaginei que me marcaria tanto.

Essa família é formada por pais de uma filha deficiente física, que moravam no terceiro andar de um prédio no conjunto habitacional da COHAB, com acessibilidade zero. Solução para a filha se locomover da casa até a rua? Carregá-la nas costas todos os dias, escada abaixo. Um a carregava no colo, e o outro, a cadeira de rodas.

Engraçado, pessoas próximas do meu convívio estão cansadas de ouvir essa história, que eu não conto para gerar piedade ou qualquer sentimento próximo disso, mas porque desde o início eram dois lances de escada pela frente que valiam a pena descer. E eles, então, me ensinaram um novo jeito de fazer justiça.

Quando cada passo é um chute de uma pedra, ou você luta ou você se a acostuma a tropeçar. É difícil falar que o oprimido é “acostumado a tropeçar”, quando muitas vezes mal sabem eles o que é um tropeço, de tanto que aquilo é constante e não imaginariam que existe um jeito digno de viver. Quem somos “nós”, os que tropeçam (bem) menos, para exigir que sigam outro caminho? O empoderamento é um processo longo, mas que permite uma mudança bem maior que a “simples” vitória de uma ação individual.

Não vou nem me dar ao trabalho de relatar todo nosso longo caminho dessa ação, que terminou com desistência dos autores e apartamento no térreo. A grande questão é que, saindo da COHAB, deu um calorzinho aqui dentro de que as coisas às vezes mudam quando a gente luta mesmo por isso e vai contra todos os “nãos” da vida que a gente recebe. Nunca foi simples, nunca imaginei uma solução fácil, mas ela acabou vindo.

Em frente a COHAB (que ironia!), a Frente de Luta pela Moradia ocupa um prédio e meu coração dá mais uma aquecida.

Ainda tem muita gente lutando. Ainda vale a pena seguir em frente.