
Como escrever uma boa história?
Naquela terça-feira à tarde, quando ela me ligou para dizer que se atrasaria um pouco, eu estava na Catedral de Curitiba. Como viria a contar, mais tarde, durante nossa conversa, eu não sou religiosa, mas vou até lá quando preciso de um pouco de paz. E aquele era um desses dias.
Quem nos apresentou foi o Rafael, ao me aconselhar a respeito de minha carreira. “Pergunte a ela como contar uma boa história”, disse.
Marcamos o encontro no Café do Paço. Cheguei antes, como de costume, pedi um chocolate quente, mexia distraidamente no celular quando a Tereza se aproximou e se apresentou. Sorridente, elegante, impossível não gostar dela, mesmo sem conhecê-la.
A conversa começou com uma explicação confusa, de minha parte, sobre minha situação. Jornalista, redescobrindo a profissão e seus caminhos. Até ali, já tinha percebido que são muitos (mesmo), mas que todos compartilham uma mesma raiz: histórias.
Mas como contar uma boa história?
Ela hesitou um pouco. Saber contar uma boa história envolve talento, conhecimento, trabalho… Uma vida toda de aprendizado, talvez. Conversamos sobre “ingredientes”. Mas, de tudo que falamos, três lições eu anotei no caderninho, que agora trago sempre comigo — outra sugestão dela.
Toque o coração das pessoas.
Toque o coração das pessoas e as pessoas mudarão suas ideias, suas crenças, suas vidas, o mundo. Eis o poder desse conselho, a meu ver: a mudança. Ou mais, uma mudança positiva.
Toque o coração das pessoas com amor e elas responderão com amor. Toque com respeito, e elas responderão com respeito. Empatia gera empatia, solidariedade gera solidariedade.
Enquanto falávamos, lembrei-me de algumas matérias nas quais trabalhei. Uma delas, sobre idosos de um asilo na Lapa que tiraram fotos segurando quadrinhos com seus pedidos de Natal no final de 2016: lápis de cor, radinho de pilha, chocolates, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Cada quadrinho, uma história. E, em cada história, uma lição de simplicidade, valorização da vida e do que temos, de amor e compaixão. A matéria tocou tantos corações que, por meses, recebemos mensagens perguntando: “Tenho muito. Como posso doar?”.
E se a gente pudesse fazer o mesmo não apenas nos textos, mas na vida lá fora?
Seja verdadeira.
A verdade liberta e, talvez por isso, eu tenha sentido um peso sair das minhas costas só de ouvir essas palavras.
Jornalista que sou, é inevitável pensar, em um primeiro momento, nas notícias precisas, baseadas em fatos, dados, documentos,provas. Essenciais, é claro. Mas me ocorreu também a verdade em outros formatos: ficções, poemas, contos. A verdade de gestos, de sentimentos, de pensamentos, de intenções.
A verdade é mais do que fatos comprovados por documentos.
A verdade, no caso de Tereza, autora de Ryu Mizuno — Saga Japonesa em Terras Brasileiras, era a crença inabalável de que o herói dessa história não havia enganado seus conterrâneos. Ryu, um dos grandes responsáveis pela vinda de centenas de japoneses ao Brasil no início do século 20, foi acusado por alguns descontentes de tê-los enganado com promessas de uma imigração legal, para uma terra repleta de boas oportunidades.
A seu favor, Tereza tinha apenas as palavras da viúva, que jurava de pé juntos que Ryu atuou bem-intencionado. Fato comprovado, mais tarde, segundo Tereza (e por documentos).
A verdade. Cada um de nós tem a sua. Isso é perceptível até mesmo nas diversos interpretações das próprias notícias; a verdade é relativa diante de tanta imaginação.
Mas nosso compromisso com ela não pode ser.
Entendo a verdade a que Tereza se refere como a que mencionei no início: a verdade que liberta. Seja da ignorância, seja do medo, da dúvida, de tantos outros fardos. Entendo como verdade aquilo que nos torna melhores, que nos torna nós mesmos, aptos a atuar, a melhorar nossa realidade.
Aprenda a escutar.
“Não ouvir, escutar”. Ela me corrigiu quando troquei as palavras. Ouvir a gente ouve tudo; escutar é raro. Mas para contar boas histórias, é preciso escutar boas histórias. O que as pessoas dizem? O que dizem nas entrelinhas? O que dizem com os olhos? Ou com o silêncio?
Talvez muito do que as pessoas queiram comunicar passe despercebido nesse mar de estímulos que são nossas conversas, sejam digitais ou pessoalmente. Escutar envolve atenção, mente e coração abertos.
Quem é capaz, nesses dias de celulares nas mãos, ansiedade, tempo curto, muito trabalho? Temos ouvidos para escutar a tristeza quando um amigo responde “sim, tudo bem”? Para escutar o pedido de atenção de um idoso que pede “um rádio a pilha” de Natal?
Quem escuta, de verdade, o que a vida tem a dizer, o que as pessoas têm a dizer? Quem escuta o que o próprio coração tem a dizer?
Voltei para casa. A cabeça cheia de ideias, os conselhos em mente e algo muito mais importante pela frente: minha própria história para escrever.
