Solidão e solitude

Mari Ohde
Mari Ohde
Nov 7 · 3 min read

Ele ainda acorda cedo, apesar de, há anos, não ter compromissos. Veste-se e arruma, com esmero, os resistentes cabelos brancos. Encontra-se com os demais moradores na ampla sala de refeições do lar de idosos. Senta-se à mesa e agradece o café com leite.

Ela acorda a duras penas, movida por pura ansiedade, é caxias demais para se atrasar. Arruma-se como pode e nenhuma maquiagem no mundo consegue disfarçar a frustração. Acomoda-se em seu posto, na portaria do prédio comercial. Irrita-se com aquela moça que sempre chega dois minutos antes do horário de abrir.

Ele termina o café e senta-se na sala para assistir aos jornais da manhã. O sol ecoa no cômodo amplo e quase vazio — há apenas dois sofás e a TV ligada. Ao seu lado, uma senhora cochila. O lar, apesar de cheio, tem poucos moradores que ainda gostam de conversar. Espalhados pelos quartos, cada um com seus pensamentos, eles só se encontram nos horários das atividades: ginástica, música, lanche, almoço, janta.

Ela organiza os boletos de condomínio a serem entregues e recebe os recém-chegados, cada vez mais numerosos e irritantes na medida em que a manhã avança. Os doutores, ela cumprimenta com um sorriso e aquele “bom dia” um tom mais alto. Com os demais — em sua maioria, meros funcionários desimportantes—, não desperdiça a pouca simpatia de que é capaz. Entretém-se ignorando cumprimentos e distribuindo broncas, pequeno poder.

Ele passa o dia perdido nas lembranças de quando era piloto de avião e se pergunta onde estariam os parentes distantes, os únicos que restam, mas que nunca mais vieram visitar. Sobressalta-se com a chegada de dois netos da senhora ao lado, que o cumprimentam, alegres, e sentam-se ao lado da avó. A senhorinha, frágil, já não responde — ele, de vez em quando, também tenta alguma interação, sem sucesso. Os jovens se conformam em apenas segurar a mão da avó, que permanece irredutível em seu silêncio. E percebem o sorriso que brilha no olhar do senhor ao lado quando perguntam como ele passou a semana.

Ela carrega o dia nas costas, descontando a frustração do emprego odioso nos inocentes visitantes do prédio. Torce a cara para novos cadastros, interpela os passantes para reclamar do que quer que venha à mente, ofende a catraca que falha ao ler as digitais, aproveita os minutos de tédio para brigar com a família por mensagens no celular.

Ele relembra sua história, seus voos, comenta o dia a dia da vizinha de sofá (garantindo que ela passa bem e anda tranquila, não há com que se preocupar). Convida os netos para conhecer a nova sede do lar, que tem piano e até jardim com samambaias.

Ela vê passar os minutos e os muitos funcionários que já desistiram de lhe falar. Alguns nem mesmo a cumprimentam, para evitar azedar o dia. Resta-lhe a afabilidade passageira dos doutores, que, tão logo cruzam a catraca, se esquecem dela.

Ele tem tudo que sempre quis na vida durante o tempo que dura cada visita que não é para ele. Tem o “bom dia” e a companhia dos vários netos emprestados— que ele nem sabe, mas já aguardam ansiosos o dia de ver os avós e o senhor amável do sofá ao lado.

Ela, a solidão. Ele, a solitude.

    Mari Ohde

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