Meu passo no vazio

Minha garganta doía muito pois tinha operado as amígdalas há menos de uma semana. Era um domingo frio, tipicamente curitibano, dia 6 de junho de 2010. A cabeça doía e a ansiedade só crescia. O coração palpitou quando tive um problema com o bilhete aéreo e quase perdi a viagem de Curitiba, minha terra, à São Paulo, terra de 18 milhões. Tinha um compromisso inadiável às 8h do dia seguinte que marcaria o início de uma nova fase da vida, numa das cidades mais populosas do mundo, na empresa mais incrível do Brasil, a Natura. Tudo isso parecia grande demais para mim. O corpo imaturo e desesperado clamava dizendo: essa imensidão não cabe em mim. Mas, a alma, insensata e ousada, não ouvia o clamor do corpo, seguia adiante suportando todas as reticências da carne.

No dia seguinte lá estava eu na Natura, como um passarinho amuado sem saber como voar. Passaram-se dias de sofrimento com a crença de que jamais daria conta de voar em meio a tanta complexidade. Foi aos poucos, com as asas já um pouco mais confiantes, que me permiti alçar pequenos voos. Num primeiro rasante, percebi que as pessoas que trabalhavam ali comigo eram sensacionais, gente generosa e disposta a me ensinar um jeito novo de enxergar a vida. Eu ganhava confiança e os vôos altitude. Aprendi que para viabilizar um mundo equilibrado para as próximas gerações, nós optamos por fazer negócios triple bottom line, que sempre levam em conta aspectos sociais, ambientais e econômicos. Vi e acreditei que é possível transformar o ambiente corporativo num lugar mais amoroso, justo e inclusivo. Ganhei os amigos mais lindos que hoje são a minha família em São Paulo. Aprendi a alquimia de transmutar inspiração em produtos e entendi que mais do que cosméticos, o que a gente faz na Natura é contar histórias. Histórias sobre vínculos, sobre transformações, sobre interdependência, sobre a natureza e a beleza holística do bem estar bem. São essas histórias que tem o poder de tocar e alegrar a alma de tanta gente.

Eu poderia citar diversos outros motivos para permanecer uma vida inteira na Natura. Mas, essa tal de minha alma tem uma coisa inexplicável, um ímpeto, uma vontade de viver o novo, o impensável. Uma necessidade de ampliar mais e mais os horizontes em busca de sentido, significado e propósito. Algo que a razão não dá conta de explicar, mas que a alma sabe que é preciso seguir para evoluir. Ainda sem saber o que virá, mas confiante de que os próximos passos se revelarão assim que me lançar na caminhada, sinto que é tempo de me reconectar com minha essência, de tomar coragem para olhar para os meus vazios e também para tudo aquilo em que sou genuinamente inteira.

Começo um novo ciclo hoje, dia 2 de agosto de 2016, um dia frio e cinzento em São Paulo, tipicamente curitibano. Com dor no estômago, dor de garganta, coração batendo forte e o corpo colocando a alma de castigo novamente pela sua audácia. Os sintomas só se acalmam quando recebo a ligação carinhosa do senhor Luiz Seabra, fundador da Natura, sensibilizado com a minha decisão de sair, mas ao mesmo tempo me liberando e me incentivando a viver o fluxo da minha evolução. As dores já conhecidas e o alento da ligação do Sr. Luiz só podem me indicar bons presságios.

É vida que segue, imensamente grata pela experiência maravilhosa de ter feito parte da Natura.


Originally published at medium.com on October 30, 2016.

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