Marcella

Ela.

Acho que são os olhos, ah os olhos. Com certeza. Não sei, eles trazem uma mistura de quem ama e cuida, com aquela coisa de quem busca segurança. Buscam conforto, afirmação e, mais do que tudo, proteção. Ah, os olhos. Mas também pode ser o sorriso, ah o sorriso. O sorriso quando me vê acordar, ou o que me dá quando eu conto uma das minhas piadas sem nenhuma graça. Ou até o sorriso envergonhado de quem sabe que não é perfeita, mas que não tem a mínima ideia do quão perfeita é.

Talvez seja mesmo as mãos. As mãos que, junto das minhas, foram um encaixe perfeitinho. Que coisa sem graça andar por aí se elas não estiverem entrelaçadas nas minhas, nem vejo mais o porquê disso. É porto-seguro representado em dez dedos. Mas pode ser que, na verdade, seja o cheiro. Um cheiro tão único, tão dela. Doce, mas não muito. Forte, mas não muito. Acho que é o jeito que eu sei que não é um perfume que se compra em qualquer loja. É a mistura perfeita da fragrância do perfume da loja com a fragrância do perfume da pele. E que pele. Talvez seja mesmo a pele. Macia. Quando tá encostada na minha dá um calorzinho, no coração e em outros lugares também. Parece assim que foram feitas uma pra outra. Como se a minha pele não pudesse mais viver sem encostar por muito tempo na dela, agora que elas já se conhecem.

Pode ser que seja o abraço, que mais parece casa e as vezes faz bico de mundo. Quando o mundo de fora ta pesado, sei que tem o lá de dentro prontinho pra mim. Sei lá, talvez seja mesmo a paciência que tem comigo. O jeito como guarda mágoa de toda e qualquer pessoa do mundo, menos de mim (e que medo que isso um dia deixe de ser verdade). Acho que pode ser também o jeito que para o que estiver fazendo pra ouvir minhas histórias sem pé nem cabeça, ou como nunca cansa da minha voz, apesar de eu falar por horas seguidas. Talvez seja como se esforça pra entender meu jeito muito livre, muito solta, mesmo que isso não seja fácil pra alguém de sua natureza. Talvez seja o jeito como não tem a mínima noção de quanta atenção chama e de quanta gente encanta, todas as vezes que derruba os muros que construiu e deixa a alma sair. Alma que ela guarda só pra mim, e não posso mentir, gosto da exclusividade.

Pensando bem, acho que é mesmo um misto: a insegurança, a segurança que as vezes aparece, a paciência, o abraço, a pele, o cheiro, as mãos, o sorriso, o cuidado, e os olhos. Ah, com certeza, sobretudo, em primeiro lugar, os olhos.

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