Só mais um dia

“E o que estamos gastando é tempo de vida. Porque quando eu compro algo, ou você, não compramos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter esse dinheiro. Mas com esta diferença: a única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável gastar a vida para perder liberdade.” — Mujica

Colocou os fones de ouvido. Queria poder se teletransportar direto para o seu trabalho, mas não. Sabia que antes tinha um longo caminho pela frente. Olhou pro relogio: 06:53 da manhã. Teria que correr pelas escadas, pois já estava 3 minutos atrasado. Culpa daquela senhora passando mal no ônibus! Correu pelas escadas. Um trem, muito cheio. Cinco minutos atrasado. Outro trem. Se espremeu pra dentro como se não existisse leis da Física que colocassem um limite de espaço. Sempre cabe mais um, e coube. Aumentou o volume da música. Era isso ou a respiração do senhor do lado. Olhou pra ele. Parecia cansado, a idade pesando nas pernas, mas também não precisava apoiar nos outros desse jeito, né? Apertou o play e seguiu seu caminho. Ao sair do trem, pessoas enfileiradas andado no mesmo passo, no mesmo ritmo, praticamente em filas indianas. Iria se atrasar. Pensou que parecia estar numa procissão, achou graça. Se fosse mesmo uma procissão seria da Nossa Senhora dos Trabalhadores. Será que existia? Se sim, era bom que ela lhe abençoasse. Apesar das horas extras, a conta estava no vermelho…de novo. Não podia mais fazer horas extras porque não podia mais faltar nas aulas da faculdade. Queria estudar e precisava se formar logo. Tinha certeza que quando se formasse, tudo iria melhorar. Sim, com certeza! Achou que quando conseguisse um emprego que ganhasse um pouco mais, sua vida melhoraria, mas agora tinha certeza, esse momento viria quando se formasse! Já viu gente formada triste? Não teria mais mensalidade da faculdade pra pagar. Se tivesse pelo menos passado em uma faculdade pública, mas essa ele sabia que nao era pra gente como ele. Até tentou, mas o colegio do bairro nao foi suficiente. Pensou em como a vida seria melhor dali uns anos. Livre, finalmente. Sem faculdade, ganhando melhor, faria o que precisasse pra chegar la. Um dia o chamariam de doutor. Seria importante, aqueles que passam o dia pra lá e pra cá, sem tempo pra nada, com a agenda lotada, quer uma reuniao? que pena, tenta o proximo mes! Sorriu. Sim, seria importante.

A procissão ainda andando devagar. Se parasse a música dos fones podia até ouvir os passos ritmados das pessoas. Direita, esquerda. Tinha até uma certa musicalidade. Um, dois, um, dois. A dança da busca pelo lugar ao sol. Sim, teria uma familia, com filhos. Dois, quem sabe três! Alguém que o amasse esperando em casa. Talvez nao tivesse tempo o suficiente para estar lá, mas não deixaria faltar um luxo sequer. Viagens, roupas, carros. Ah, seria bom. Seria então dono da propria vida. Compraria a própria felicidade. Claro, talvez perdesse algumas coisas, alguns aniversários, a primeira palavra de um filho, mas valeria a pena, porque afinal poderia comprar um dicionário inteiro, com mais de mil palavras pra ele aprender. Aniversário tem todo ano, daria um jeito. Trabalharia até onde pudesse pra ter a vida dos dignos, a vida dos deuses. A conta nunca mais estaria no vermelho. Tudo bem, talvez adoecesse no caminho, mas nada como ter um bom plano de saúde não é mesmo? Pressão alta, colesterol alto, diabetes, depressão, poderia vir o que for, seria bem atendido pelo menos. Talvez nem soubesse a cor preferida dos filhos, não ia ter tempo pra essas coisas bobas, mas tudo bem, agradeceriam quando entendessem que ele sacrificara aquilo por eles. Trabalharia muito, para que nao faltasse nada, nem arroz, nem farinha, nem carro do ano, nem jantar fora no fim de semana. Claro, talvez nesse meio caminho, faltasse um pouco de atenção, um pouco de paciência, um pouco de amor. Mas tudo tem um preço e a vida é feita de escolhas, não é mesmo? Afinal, esse era o mundo livre, o sonho. Poder trabalhar bastante e enriquecer. Quem quer consegue, eles diziam. Ele queria, entao iria conseguir, né? Só precisava conseguir sair dessa procissão de todos os santos de todos os dias. Direita, esquerda, um, dois, olha a musica de novo. Iria conseguir. só esperava que não acontecesse o que aconteceu com o neto da Dona Cida lá da rua. Coitado, estudou muito e não conseguiu nada. Mas achava que é porque ele não queria tanto assim. Ficou tão triste, mas tão triste, que morreu de tristeza. A Dona Diva também, pobre Dona Diva. Trabalhou a vida toda e depois de se aposentar, teve que continuar trabalhando. Fazer o que né, são escolhas. Quer ter uma vida boa tem que passar por isso. A Maria José por exemplo, chega em casa todo dia às 22 horas, cuida dos meninos dela e ainda acorda no outro dia as 4! Cada um faz o que quer né. Quem quer, consegue, eles dizem. Finalmente saíra da estação, a procissão chegara ao fim. Encerrou os pensamentos da manhã, teria mais 2 horas no trajeto de volta para pensar mais no assunto. Agora precisava mesmo é correr, faltava 2 minutos pra bater o ponto. Ainda bem vivemos em uma sociedade livre.

Espera, vivemos?