Good Girls, 2a Temporada – Sem intermediários

A comédia dramática sobre mães que entram para o mundo do crime chega à sua segunda temporada com reviravoltas e alguns lugares-comuns

Jun 4 · 5 min read

Depois de uma primeira temporada bem sucedida e divertida em 2018, a “dramédia” da NBC estreia sua segunda temporada no catálogo da Netflix, mantendo seu ritmo rápido, uma trilha sonora integrada e texto inteligente. Mas diferente da temporada anterior, algumas pontas do roteiro se soltaram, o que fez alguns arcos se perderem ao longo do caminho, talvez pela quantidade maior de episódios (nessa segunda temporada são treze episódios ao invés de dez como na primeira) algumas sequências pareceram mais arrastadas. Mesmo com alguns problemas de verossimilhança e resoluções apressadas, as atuações e situações inusitadas em que as personagens se0 colocam continuam gerando risadas ao mesmo tempo que alcançam pontos dramáticos de questões sociais e íntimas.

A série não se revela de cara: terminamos a última temporada com Beth apontando uma arma entre o próprio marido Dean (Matthew Lillard) e o traficante Rio (Manny Montana), o chefe da gangue para qual ela trabalha. O suspense sobre em quem ela atiraria se desenrola com cenas do futuro, em que ela é obrigada a limpar o sangue do chão de sua sala de estar. Esses contrapontos entre as consequências nocivas da vida de criminosa e as obrigações da vida doméstica são o reflexo da contradição que Beth tem de lidar e persistem ao longo de toda a temporada. Mas já no primeiro episódio descobrimos que as tais “escolhas” que o traficante Rio oferece são na verdade uma forma de persuadi-la e mantê-la sob seu controle, e quem acaba levando um tiro (e sobrevivendo surpreendentemente) é Dean, marido de Beth.

E como mesmo depois de levar um tiro no peito, o marido insiste em ficar vivo, Beth decide reassumir seu lugar na concessionária e trabalhar para lavar o dinheiro falso enquanto Dean, pela primeira vez na vida, fica a cargo dos cuidados das crianças. Na mudança de papéis, Beth se sai muito bem no trabalho formal, mas a pressão de Dean pela presença de Beth não deixa de refletir os duplos padrões em que homens e mulheres são julgados. Ao longo da temporada o arranjo familiar vai se adaptando à necessidade de divórcio que os dois possuem.

Porém, as chantagens de Rio não são os únicos problemas a serem resolvidos: o FBI segue em sua investigação para encontrar os assaltantes do mercado em que Annie trabalha, e uma tampa de caneta com batom pode ser o suficiente para incriminar o trio. Em uma missão para tentar recuperar o objeto da vã da perícia policial, as garotas são obrigadas a desistir da operação quando percebem que, para inviabilizar o DNA contido na tampa da caneta, elas estragariam todas as evidências coletadas nos kits de estupro presentes na mesma vã. Pensando nas mulheres vítimas de estupro que tentam responsabilizar seus abusadores, elas abortam o plano, reafirmando o posicionamento da série sobre a seriedade dos crimes sexuais cometidos por homens.

Quem acaba se envolvendo no roubo da tampa da caneta é Stan (Reno Wilson), marido de Ruby, que agora ciente das atividades ilícitas da esposa, decide ajudá-la mesmo sendo policial recentemente admitido na academia. O que na temporada passada era um segredo de Ruby, se tornou um segredo familiar e Stan passa a integrar o time e também a sofrer as represálias e investigações da polícia. Stan é o único homem da série que é retratado como alguém preocupado com a família e amoroso, capaz de abdicar de seus planos pela segurança de quem ele ama, e essa proporção entre homens abusadores, interesseiros, violentos e o único cara realmente comprometido, é no mínimo, realista.

E pegando o gancho dos “boy lixos”, o arco mais fraco da série é sem dúvida a trajetória amorosa de Annie, que desde o fim da última temporada começou a se envolver com o ex-marido atualmente casado. Greg (Zach Gilford), pai de Sadie (Izzy Stannard), é simplesmente um cara desinteressante e irresponsável que, mesmo em processo de engravidar a esposa Nancy, é capaz de se envolver com a mãe de sua filha. O romance secreto de Greg e Annie consome uma boa parte da temporada e desaparece assim que Nancy dá a luz. Tempo gasto com uma narrativa lugar-comum e sem consequência para a trajetória das personagens, a não ser o mal estar causado em Sadie ao saber de todos esses incidentes.

A trajetória de Sadie também parece ter sido criada apenas para satisfazer a demanda dos movimentos trans-ativistas: mesmo depois de um discurso sobre como os homens são horríveis com as mulheres, a adolescente afirma para Annie que ela também “é um garoto”. Essa afirmação de Sadie foi o suficiente para que Annie começasse a procurar por bloqueadores hormonais imediatamente, sem uma menção sequer a profissionais de saúde, psicólogos ou psiquiatras. A orientação sexual de Sadie não chega a ser comentada, mas a necessidade de hormônios para alterar permanentemente seu corpo antes mesmo de ele ter tempo de se desenvolver parece normalizada.

Novos problemas envolvendo Boomer (David Hornsby) – que no passado tentou estuprar Annie e agora funciona como uma testemunha chantagista dos assaltos que elas cometeram – também passam a assombrar as garotas. Depois que seu relacionamento com Mary Pat (Allison Tolman) começa a esfriar ele novamente parte para violência e coerção. A história de Mary Pat também ganha outra dimensão nessa temporada, mostrando que o trio protagonista estava mexendo com uma pessoa com mais segredos e menos estabilidade do que imaginavam.

A tensão sexual entre Beth e Rio chega ao ápice de sua realização: envolvida pelo poder e controle que Rio exerce, o flerte se torna inevitável para Beth. Misturando violência e chantagem com jogos de sedução, o romance é claramente perigoso, e nesse sentido, a série também seduz as espectadoras por meio do charme de Rio. Mas não podemos esquecer que apesar da fala mansa e dos olhares envolventes, estamos tratando de um traficante e negociante de sangue frio, que por muitas vezes ameaçou e chantageou Beth e suas amigas.

Apesar de uns tropeços, a temporada segue o ritmo que a série já havia traçado anteriormente, e sua resolução nos faz pensar em uma independência criminosa dessas mães desesperadas, agindo por conta própria e sem chefes de gangue. Mas esse percurso não vai acontecer sem incidentes ou confusões, para a felicidade das espectadoras.

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