Ec. 2:17

Pensei bem se devia escrever uma introdução . Explicar a razão de ser desse espaço, qual o meu objetivo aqui … Só que pretendia que tudo que escrevesse fosse o mais espontâneo possível. Sendo assim, acho legal escrever o que tenho vontade de escrever ao invés de seguir regrinhas.

Hoje fui despretensiosamente fazer as sobrancelhas. Já conhecia a moça simpática que realizaria a tarefa, mas até então não havia conversado muito com ela. Já cheguei alertando que ela teria um trabalhão, visto que fazia tempo que não ajeitava as minhas sobrancelhas. Deitei na maca branca que me faz pensar que estou no dentista. Assim que a moça viu o estado das sobrancelhas ela riu: “Poxa, mas suas sobrancelhas são lindas!” “Ah, na verdade elas têm um monte de falhas, queria aquelas bem desenhadas, bem cheias”, eu disse encarando o elogio como uma típica adulação de vendedor. “Mas tá tão bonita natural! Na verdade, tudo o que é natural é melhor. Nada contra quem faz mil procedimentos cosméticos no corpo. Conheço muita gente que já fez não sei quantas cirurgias. É botox, silicone nos seios, na bunda…” Conversamos por algum tempo sobre como essas operações são, muitas vezes, arriscadas e até mesmo fatais. Concordamos que há uma quantidade assustadora de pessoas que são viciadas em buscar sempre melhorar a aparência. “As pessoas só correm atrás do supérfluo, a vida perde o significado”, ela disse. Essa frase ficou na minha cabeça por um tempão. Não esperava que uma ida ao salão desencadearia uma reflexão existencial, confesso.

Pensei por um tempo… Lembrei-me de mil coisas que faço pra agradar as pessoas, atender às expectativas alheias ou para simplesmente satisfazer meu ego. Pura vaidade. Como eu corro atrás do supérfluo! Como por vezes dou importância ao que é passageiro e corro atrás do vento…

A minha reclamação sobre as minhas próprias sobrancelhas era a deixa perfeita pra que a moça me oferecesse algum cosmético que promete me deixar satisfeita comigo mesma. Ela trabalha com estética, afinal! Ao invés disso, ela me alertou. Ganhei uma lição não só sobre autoestima mas também sobre como a vida é muito além do que pode ser contemplado com essa nossa visão completamente distorcida, contaminada. Qualquer sentido que tentemos dar à vida que não seja transcendente, será supérfluo.

Fiquei feliz por ter falado com essa moça e também por saber que mesmo sem me conhecer direito, ela se importou comigo de alguma forma. Ela poderia simplesmente concordar que minhas sobrancelhas poderiam ficar melhor, me empurrar um monte de produtos, ganhar um dinheiro em cima de mim e eu ainda iria sair de lá insatisfeita com a minha “versão natural”. Mas nada disso, ela não mercantilizou nossa relação. Isso é tão raro! Deixei o salão não só satisfeita, mas também feliz por ter conhecido uma profissional como essa moça.

Mas e se eu não tivesse essa conversa pra me alertar? Continuaria a correr atrás do supérfluo? Continuaria a dar tanta importância ao visível aos homens? Isso tudo revela o quanto ainda tenho que avançar nesse sentido. Que Deus me ajude a lembrar: tudo é vaidade e correr atrás do vento.

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