| época de incêndios

Há algo numa birra que faz lembrar um incêndio — algo que nos atemoriza a segurança, que põe em causa a nossa superioridade e controlo sobre as forças da natureza e que nos reduz perante nós próprios. Por isso há quem não as consiga tolerar ou permitr.

Mas ninguém se engane: nenhum fogo deixa de arder à custa de ordens ou de comandos (este das birras, por exemplo, mesmo que silenciado, continua a devastar território por dentro).

Há algo numa birra que faz lembrar um incêndio: quase conseguimos ver as labaredas através dos seus olhos, e a lágrimas bem podem ser de água que nos consomem o ego e queimam a paciência. E queremos ser bombeiro e avião-cisterna no meio do mato em chamas em que eles se tornaram: um minuto de descuido, um não quando esperavam um sim, uma raiva que explodiu, com as condições propícias ( uma ventania de emoções ou altas temperaturas) e é um fogo posto a lavrar solto.

E, muitas vezes, ficamos em pânico, sim: atiramos água à toa, tentamos abandonar o local a sete pés, faltam-nos os recursos e o treino de os saber usar. Falta-nos ter a lição estudada.

Falta-nos a previdência de ter ali à mão a manta corta fogo que o abraça, ou melhor, abafa. Que o reduz lentamente, que não o espalha antes o contém, que o faz extinguir-se por falta de oxigênio, sem que nós fiquemos sem ar.

Como para os incêndios de Verão, há que saber que a prevenção é o melhor remédio: manter o terreno das emoções limpo de lixo e ervas daninhas, promover um bom ordenamento das necessidades emocionais daquele território, abrir estradas corta fogo que permitam travar alguma pequena fogueira que saia do (auto)controlo, fazer o scan do estado do solo, durante os invernos do nosso contentamento mas saber que, como dizia o historiador Rui Ramos, numa crônica pouco demagógica: “nunca teremos um país sem incêndios”, também “nunca teremos crianças sem birras”.

E, por mais pai-legislador e “pai-sagista” que devamos ser na gestão desse país em vias de desenvolvimento que é a infância, não há nada de menor no papel de bombeiro* — alias, a entrega do soldado da paz tem de estar de serviço ao nosso coração a cada crise, porque é ele o (pai) herói que, na verdade, (n)os salva.

* um infinito obrigada aos de verdade que, sem reclamar de cansaço, falta de meios ou desistir nos salvam todos os anos e nos inspiram a ser pessoas melhores

Os 7 Mandamentos do Pai Bombeiro aqui:

http://www.osuavemilagre.com/artigososuavemilagre/os-7-mandamentos-do-pai-bombeiro