Olha, já é noite.

E há qualquer coisa no escuro, como no silêncio, que nos incomoda. Como conseguir manter os olhos fechados. Algo que nos obriga a olhar para dentro. A não ter distrações. A ouvir os nossos pensamentos.

Centrar a atenção no coração. Ou numa chama que cheira a framboesa. Não ir com os pensamentos. Ir com o coração.

Tão difícil, às vezes.

O olhar que se desvia da chama, como nos desviamos da paz — o permanente esforço, as batalhas de sempre como caminho seguro, conhecido.

Um jogo que já se jogou mil vezes e que nos mantém com os olhos abertos e o coração acelerado, numa constante busca de ruído e provocação. uma música de fundo que ensurdece, uma luz artificial que ofusca e que nos fazem avançar sem saber para onde, tropeçar e levantar sem lamber as feridas, o pensamento que nos sussurra que não há tempo a perder, que no escuro vivem papões, que no silêncio só há vazio.

Olha, já é noite.

A chama extinguiu-se, consumida de oxigénio — e então lembro-me de outras noites frias, em que a completa ausência de luz nos caminhos de terra batida acendia as estrelas mais brilhantes no céu de Novembro***