Sorte ― um breve ensaio sobre relacionamentos abusivos

Eu o conheci algum tempo atrás. Tempo esse que deixei de contar quando passei a sentir vergonha por estendê-lo sem conseguir me livrar da situação na qual havia me colocado.

Por ser fraca…

Por estar desesperada…

Por não me dar valor.

Na época, eu tinha apenas dezoito anos e havia acabado de sair de um longo relacionamento abusivo. Eu me sentia numa total impotência diante da vida. Incapaz de qualquer coisa. Certa de que ninguém em sã consciência voltaria a perder tempo comigo.

Mas eu tinha sorte…

E ele apareceu. Com trinta anos e uma vivência ampla para a idade. Era diferente dos outros caras que eu conhecia. Era independente. Confiante. Interessante. E foram nessas qualidades que me apeguei quando comecei, sutilmente, a tentar fazer parte de sua vida.

Aos poucos, após várias investidas discretas, comecei a notar que ele também se sentia atraído por mim e se aproximava cada vez mais e mais. Não puder conter minha excitação. Pela primeira vez na vida eu havia investido em uma pessoa que correspondera meus sentimentos. E, para melhorar, ele era perfeito.

Fazia algumas piadas machistas, é verdade…

Também bebia um pouco mais do que devia, às vezes…

E não gostava muito quando contrariavam sua vontade…

Além de ter o costume de tratar as mulheres como objetos…

Mas não eu! Jamais! Comigo era diferente.

Eu tinha sorte.

A aproximação foi espontânea. Nosso primeiro beijo foi tão natural. Ele não me forçou a nada. Teve a maior paciência, mesmo quando eu estava “me fazendo de difícil. Me levou para jantar (até pagou a conta!). Fez tudo que podia para me agradar, sempre dizendo tudo que eu queria ouvir. Fez por merecer o beijo. Eu não poderia deixar de beijá-lo depois de uma noite daquelas. Depois de todo aquele tempo de insistência.

Eu estava confusa e machucada. Incerta sobre o que queria fazer. Não havia planejado me entregar tão rápido à outra pessoa, mas “se demorar muito, já sabe, né?”.

Ele poderia cansar de esperar…

Abandonar o interesse…

Deixar de querer…

Deus me livre de perder um homem desse!

Eu tinha sorte.

Precisava beijá-lo.

E ele quis mais no dia seguinte. E no seguinte do seguinte. E no seguinte do seguinte do seguinte… Após algumas semanas, já havia me pedido em namoro.

“Ele é maravilhoso! Parabéns por ele ter se interessado por você!”

“Amiga, você arrasou conseguindo segurar um homem desses, hein?”

“Você ganhou na loteria mesmo!”

Eu tinha sorte.

E todo mundo, inclusive ele, concordava.

Tanto que, aos poucos, foi extinta qualquer possibilidade de alguém pensar que, talvez, ele tivesse tido “um pouco de sorte também”. Que eu também era maravilhosa. Que ele devia ser grato por ter me encontrado. Não.

Mesmo quando, bêbado, ele me forçava a fazer coisas que eu não queria…

Mesmo quando ele fazia comentários nojentos sobre outras meninas na minha frente…

Mesmo quando ele me humilhava para ser engraçado entre os amigos ou família…

Mesmo quando ele me xingava quando eu simplesmente discordava da sua opinião…

Eu tinha sorte.

E ele tinha todo o resto.

Inclusive o controle sobre a minha mente.

Sobre o meu corpo.

Sobre a minha vida.

Mas nada disso realmente importava, porque eu ainda tinha sorte.

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