Que doido é isso de ter raiz, de gostar de cotidianos…

Um texto difícil de entender, assim como nossos passeios no terreiro ou nossas viagens para Aparecida do Norte.

“Tenho certeza que o cobertor aqui de casa é mais quentinho que o cobertor lá da sua casa, Mariana”. E foi com essa frase que cheguei na casa do meu padrinho, na Colônia (Parelheiros, extremo sul da cidade) às 23h30 do último sábado, 08/07, com o corpo cansado da maratona dos últimos dias e só querendo dormir 72h.

O chão lá de casa ainda é de terra, e não há problema nenhum em ser assim, as galinhas curtem, assim podem comer as sementes que caem das árvores espalhadas pelo quintal. Que belezinha esse quintal. O caminho para sobreviver ao dia é o mesmo há quase 70 anos, quase, porque tem muita vida no meio da vida. Padrinho levanta às 6h30, coloca a chaleira com água para esquentar, banheiro, uma olhadela no quintal pela porta vazada, um cigarro e depois 2 litros de café prontos, que acaba na hora do almoço. Sim, haja café. Um pouco de tv, quintal e depois uma cervejinha no bar, porque ninguém é de ferro, e é sábado.

Mas bem, era de mais coisas que eu ia falar, era de 3 dias intensos em lugares de afeto distintos. Era pra reforçar a presença do S na palavra periferias. É doido pensar que a zona norte é completamente diferente da zona sul, e a zona oeste é completamente da zona leste e nenhuma se assemelha ao centro. Caceta! Que cidade, que cidades complexas.

“Vejo essas novas pessoas
Que nós engendramos em nós
E de nós
Nada, nem que a gente morra
Desmente o que agora
Chega à minha voz
Nada, nem que a gente morra
Desmente o que agora
Chega à minha voz…” — Caetano.

Eu passei dois anos da minha vida convivendo de perto com comunidades tradicionais, eu cresci perto de uma aldeia guarani, e a relação de afeto dessas pessoas com seu território é incrível, relação de proteção. E assim como meu padrinho, algumas famílias das margens da cidade tem uma história e modo de vida profundamente ligados ao seu território.

Rastro

Sexta: Estive no Campo Limpo, território de Tony Marlon e de tantos amigos, espaço com metrô, grandes avenidas, shopping, sesc e uma vida cultura que pulsa. Eu tive a honra de mediar uma mesa incrível, dentro do Festival Percurso, com Gisele Brito e Thais Siqueira (DoLadoDeCá), jornalistas e integrantes da Rede Jornalistas das Periferias e com a Elaine Una, de Recife e gestora da Casa Coletivo de Comunicação. Que dia para se estar vivo, que dia de troca de experiência com mulheres da treta, da luta e com trajetórias e visões que se encontram. A gente devia promover mais encontros assim.

Sábado: com um misto de leste e sul. com realidades completamente distintas eu estive em dois territórios incríveis, potentes e distantes um do outro. São Mateus, com uma potência artística, uma potência de comunidade e união. Um movimento que acontece naturalmente naquelas vielas coloridas. O esgoto gritando, mas pessoas lutando e existindo ali. Atravessar a cidade para o outro extremo, o sul, dá preguiça, cansaço, e tem o trânsito no meio do caminho. Caramba, preciso ir mais ali. Preciso cruzar mais essas escolhas. Na Colônia uma agitação no bairro, que traz em sua história uma tradição alemã, mas que na verdade é uma terra com misto de negros, nordestinos, indígenas, japoneses e tantos rostos que faz de são paulo o que ela é, diversa.

Uma pausa

É na Colônia (Parelheiros) que eu me sinto dentro de mim, foi ali que eu nasci, cresci, estudei, comecei a trabalhar. Foi ali que construi as relações de afeto com meu território. Foi na Estrada da Barragem 173 que eu comecei a construir uma história nessa existência. E que doido é não morar mais ali e mesmo assim voltar se sentindo em casa, na sua rua, com seus amigos, vizinhos, sorrisos, fofocas.

No domingo eu sai de manhã de casa, com meu afilhado de 10 anos (pois é, gente, velhice), andamos pelo bairro, que às vezes acho que é uma praça de tão curtinho. Passei pela viela das canas, falei com os meninos, passei pela antiga casa do meu avô, ah lá no 173, porque a casa que também me criei fica mais pra cima no 618. Ali no caminho encontrei a Dona Lídia, ela faz parte da coleção de senhoras ocupadas com a vida alheia, a primeira pergunta foi “Casou, Mariana?”, a segunda foi “Já teve filho?”, para as duas respostas “Não, Dona Lídia, seguindo um caminho meio diferente desse ai”. É gente, Colônia é um mundo a parte.

Dali segui para a 12ª Colônia Fest, que faz parte de um momento fodido da minha vida, de construção de identidade, de luta pela história e para que as pessoas se sentissem pertencendo de fato ao bairro e tantas outras coisas. Deixei a organização da festa tem pelo menos uns 7 anos, mas foi nela e no JECA que aprendi o que a política significava para a cidade. (Mas isso é história para um outro texto).

Mas olha, gosto sempre de pensar no cotidiano do meu padrinho. Ele acorda cedo, faz o café dele, olha o quintal dele, bebe a cerveja dele, assiste Datena todos os dias, fala pouco, sorri pouco, sempre trabalhou demais como carpinteiro, mãos calejadas e corpo visivelmente abatido por esse trampo. Cacete, quem sou eu nisso? Sou nada, sou ninguém.

Eu observei muito a dinâmica da política de interior morando na Colônia, e muito pelo meu padrinho, que fazia questão de falar mal de todos os candidatos, mas também deixava todos eles usarem o portão de arame da frente de casa para colocar placas, que eram retiradas em menos de 15 min após os cabos eleitorais virarem a esquina. Aprendi com ele que votar era essencial e necessário, tinha que ir. Ele se diz nada vaidoso, mas se arruma para ir votar na escola que fica lá em Parelheiros, precisa pegar condução para chegar, subir um morro, ele vai, sempre. Sem preguiça, e volta para esperar apuração em casa, com seu copo americano de café e seu cigarro sentado na ponta da cama.

Ano passado eu fui pra lá votar, né? Eu cheguei em casa falando sobre a Bancada Ativista, mas desisti em menos de 5 minutos de conversa, ele disse que já tinha escolhido o voto dele e que estava indo, pra eu não ficar falando, porque pra ele é tudo a mesma coisa, mas que acredita no que eu acredito e “não se vota no menos pior, Mariana, se vota em quem acredita e confia, nenhum deles até hoje me fez acreditar que irei me aposentar e eu tenho quase 70 anos”. É claro que o mínimo que poderia fazer é me calar.

Em casa eu aprendi de política, aprendi que trabalhar é nossa forma de luta, principalmente se você trabalha no que acredita. Eu nunca ouvi em casa que eu morava em uma periferia, eu morava na Colônia, zona rural de SP, longe pra cacete, lá onde a gente fala com muito r nas palavras, a gente se reúne no banco, no Bar do Hélio. É lá que criamos os laços que não se descolam de quem somos.

Naquela noite, 08/07, as galinhas já todas quietinhas no quintal, eu ainda tenho a chave da minha casa. Ele estava me esperando com minha cama arrumada. Ansioso pra dizer que tinha comida no fogão e que se eu estivesse com fome, que me virasse (aham!). Naquela noite, eu deitei acreditando que mesmo vivendo outro momento da minha vida, morando em um lugar nada a ver comigo, eu sou dali, eu pertenço ao bairro que acolheu a minha família.

Eu tenho muitas histórias confusas sobre a Colônia e seus habitantes. Longas. Esse aqui é pra falar sobre o meu território, e como essa viagem entre Campo Limpo, São Mateus e Colônia, me trouxe uma rota de percepção que preciso ainda digerir e celebrar.

Fazia ali pelo menos uns 8°C.

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