Pétalas do tempo
Do alto da janela,
já com os olhos semicerrados de tanta rinite alérgica,
vejo-te colocar, como no dia anterior,
um a um,
os teus buquês de flores.
São mesmo variados: flores brancas, roxas, rosas e amarelas.
Um a um,
lado a lado,
delicadamente enfileirados na bancada em frente ao ponto de ônibus.
Tu, certamente, dirias-me, do auge da tua longevidade lusitana, que se tratava de uma estação de autocarro…
Todavia, face ao teu cativante lirismo, sei que me permites tal licença.

Sigo.
Acompanho-te.
Eu, do alto da janela,
vejo-te baixa,
sinuosamente baixa.
A coluna faz-te um arco fixo,
como se tu nunca tivesses experimentado outra posição.
Tal qual andas lenta, tranquilamente,
de um lado ao outro,
fazendo com teu corpo frágil um ângulo de noventa graus.
Os pequenos e jovens
passam ao teu redor curiosos,
variando entre a babaquice fuxiqueira e os lamentos dramáticos.
Os médio adultos até te sorriem,
cumprimentam,
para logo adiante estarem a cochichar e referir a tua forma geometricamente marcante.
Os senhores e senhoras,
por sua vez,
visitantes assíduos das bancadas do Centro Comercial dos Granjinhos,
engatam contigo conversa.
Vejo-te, minutos a fio, com o pescoço eriçado,
a trocar palavras com um e com outra …
Todavia, seja passando em sorrisos,
seja parando em pequenos devaneios,
fato é que não vi ninguém lhe comprar um buquê de flores que fosse.
Tu,
entretanto, ao fim de algum tempo,
tal como dispusera,
passa a recolher,
um a um,
cada buquê,
colocando-os,
com o cuidado de quem valoriza tudo o que um dia representou vida,
no seu grande saco.
Este, pesado de folhas e aromas,
sobrepõe-se às tuas costas,
que eu, neste momento, já nem sei dizer que formas pode tomar tamanha a curvatura que ali vai.
E lá vais tu,
voltando tão carregada como chegara,
e sem um tostão no bolso.
Lá vais tu,
com o passado todo a te curvar as formas,
mas com um sorriso maroto a te elevar a alma,
com ar de quem aproveitou uns bons momentos do seu cada vez mais escasso presente.
Lá vais tu,
serena,
dando outro sentido à constatação de que:
Tempo, de fato, é dinheiro.
