Sobre deixar de sentir ciúmes.

Muitos amigos meus não acreditam, mas eu já fui ciumenta. Aquela ciumenta chata, que pegava no pé, apelidava todas as mulheres em volta do cara de “sua amiguinha” (naquele tom bem irônico e irritante) e queria senha de tudo. Tudo que eu fazia cabia dentro daquela desculpa ilusória e vazia de “estar cuidando do que é meu”, mesmo sem ter a nota fiscal.

Até o dia em que eu entrei em um relacionamento abusivo. Meus amigos não serviam, minhas amigas não serviam, só ele servia. Não podia ir ao banheiro sem avisar, tive que sair de metade dos grupos do Orkut (velha, eu? Só fazem 6 anos que deixei de usar, tá? Ora…), tive que mudar minhas roupas, minha realidade, minhas preferências, minhas senhas, meu time de Dota… Tudo por causa de ciúmes e mais ciúmes. Foi aquele tipo de relacionamento que até hoje eu me pergunto por que durou mais de 3 meses. Mas, ao mesmo tempo, foi uma escola de tudo que eu NÃO quero para mim. E nem para ninguém.

Desde então, eu fiz a maior terapia interna da minha vida: deixar de ser ciumenta. E essa mudança não começa no cara, começa em você. Então eu vou escrever sobre as coisas que eu fiz e atitudes que tomei em busca dessa “paz de espírito” que é ser uma pessoa “de boas” em relação a ciúmes.

  1. Eu viajei - desenvolvi independência e segurança.
    Foi a primeira coisa que eu fiz depois do término do relacionamento abusivo. Empacotei minhas coisas e fui pra outra cidade, outro estado, outro país. Pode parecer, mas não era uma fuga. Era um grito de liberdade. Aprendi a me virar, paguei contas, resolvi problemas, me perdi, encontrei caminhos, morei sozinha, lavei minhas roupas, cozinhei minha comida, cozinhei comida pros outros, conheci outros lugares e me perdi de novo, resolvi novos problemas, conheci outras pessoas e viajei mais. Eu vi e respirei os campos, as praias, eu ouvi histórias fantásticas de pessoas tão simples, mas tão simples que até hoje eu me arrepio só de lembrar. Tudo isso para quê? Bom, no primeiro instante, eu admito que foi pela aventura. Mas depois eu comecei a refletir sobre tudo que eu fiz sozinha. Tudo que eu superei e conquistei e resolvi e aprendi… Eu era inteira. Eu não era metade de ninguém. Eu viveria absolutamente bem e feliz no nomadismo. Segura disso (e de mim mesma), me dei conta de que eu não precisava acompanhar ninguém, eu precisava que alguém me acompanhasse. 
    Foi o fim do apego.
  2. Eu desenvolvi empatia.
    Sabe qual a diferença entre empatia e simpatia? Na Simpatia, você compreende uma dada situação e transmite algum sentimento que caiba naquele momento. Por exemplo: uma pessoa simpática pode sorrir à sua felicidade, te dar tapinhas no ombro nos momentos de derrota, tentar te animar em um momento de tristeza. Já na empatia, há uma percepção e um entendimento mais profundo da situação. Como se a situação estivesse acontecendo consigo. Aquela velha história de “se colocar no lugar do outro”, mas não apenas superficialmente, a pessoa empática consegue sentir as dores e amores de quem está à sua volta. Desenvolver a empatia foi fundamental para que eu pudesse compreender que as minhas ações ou palavras vão fazer toda a diferença nos meus relacionamentos e devem ser usadas à favor dele, e não contra.
    Foi o fim dos xingamentos e apelidinhos nas amigas.
  3. Eu busquei a melhor versão de mim, e a mantive.
    Eu sempre fui aquele tipo de pessoa que dificilmente gerava inimizade. Sempre fiz amigos muito facilmente, na minha rua, no bar, na internet, na praia, na escola, na faculdade… Basta ter algo que me conecte a alguém. Eu sempre fui simpática e engraçada, costumava ler muitos livros e escrever bem, sempre gostei de sorrir quando as pessoas falam comigo. Sempre busquei ajudar no que eu pudesse, sem me deixar ser explorada. Eu nunca fui realmente boa em algo, mas eu dou meu melhor em tudo que eu faço, dentro do possível. Gosto de tratar as pessoas bem, fazer com que se sintam bem ao meu lado. Essa pessoa aí sempre foi a melhor versão de mim, é isso que eu quero ser. Sempre que eu estou prestes a tomar uma atitude que fuja disso, eu conto até 10.
    Foi o fim das explosões por qualquer besteira e birras idiotas.
  4. Eu amei a melhor versão de mim.
    No momento em que eu “me encontrei”, eu gostei de mim mesma. Eu gostei tanto que eu quis ficar. Então eu decidi que ia cuidar de mim, e me defender, me tratar bem e me amar. Lendo assim, parece bem prático, como uma receita de bolo. Mas não é nada disso. É um processo lento, de autoconhecimento, de dentro para fora. Você percebe que desenvolveu amor próprio quando consegue priorizar seu bem-estar e se livrar de coisas e pessoas que lhe fazem mal, por mais que você seja apegada a elas. Você percebe que desenvolveu amor próprio quando passa a não aceitar mais qualquer coisa ou qualquer pessoa no seu circulo de amigos ou amores. Você percebe que desenvolveu amor próprio quando as pessoas passam a ter que se esforçar muito para lhe ofender ou deixar triste. Quando você para de chorar pelo que não vale à pena. Quando se olha no espelho e desiste de colocar aquele silicone ou fazer aquela plástica - você acabou de decidir que quem quiser ficar contigo vai ter que te aceitar com todos os defeitos de fábrica.
    Foi o fim dos meus problemas com autoestima.
  5. Eu me valorizei.
    Quando eu abri minha empresa, minha maior dificuldade foi precificar meus serviços. Eu queria vender e vender, e às vezes acabava cobrando valores que não valiam à pena. Então, depois de muito “tapa na cara” eu aprendi que “preço” é muito diferente de “valor”. O “preço” é a soma de todos os custos que eu tive para produzir aquilo ali + meu lucro. O “Valor” é algo percebido. É o que meu cliente leva para casa, a experiência que eu proporcionei à ele. Desde então eu trouxe esse conceito para a minha vida. Eu não quero ser uma “pessoa de preço”, quero ser uma “pessoa de valor”. Então eu procuro sempre proporcionar boas experiências para quem está à minha volta. Uma crise de ciúmes, por exemplo, foi item riscado da lista. E nesse ponto é preciso ser racional: “Esta realmente é uma situação que merece atenção?” | “Há alguma evidência de traição ou estou criando coisas na minha cabeça e acreditando nelas?” | “Isso é intuição ou implicância?” | “É melhor partir para cima e perder a razão ou observar para ver se realmente estou certa sobre isso?” Se pergunte, responda, e tire suas próprias conclusões.
    Foi o fim das crises de ciúmes e acusações sem fundamento.
  6. Eu perdi o medo de ser traída.
    Eu acho que esse é o maior alimento do ciúme. O medo de ser enganada, de ser traída, de ser feita de otária, de não perceber o óbvio. Quando você perde o medo de ser traída, tudo na vida fica mais leve. Se por algum acaso alguém quiser te trair alguma vez na vida, essa pessoa vai te trair - independente de você ser ciumenta e cuidadosa. Não precisa ser em uma festa ou em uma viagem ou em um barzinho com os amigos, pode ser ali na porta de casa, no horário de almoço do trabalho, na casa de um(a) amigo(a), na faculdade. O medo da traição só tem uma função: tentar enlouquecer o casal. Então, já que não me fazia bem, deixei esse medo de lado. Afinal, depois que você se valoriza e desenvolve seu amor próprio, o jogo vira. Você agora é uma mulher segura, simpática, gente fina, companheira, bem resolvida. Ao ser traída você não está “perdendo” o cara. Está “se livrando” dele. Não era a pessoa certa ainda, fim. Pra quê ficar perdendo tempo? Parte pra outra. Quem perde é ele.
    Foi o fim de quase todo o meu sentimento de ciúme.
  7. Eu guardei um pouquinho do veneno em um potinho.
    Apesar do meu desprezo por esse sentimento, não posso me desfazer completamente dele. Algumas gotinhas de vez em quando são saudáveis. Hoje em dia eu demonstro o que restou do meu ciúme quando estritamente necessário, da forma mais descontraída possível. Dessa forma eu não crio uma briga e consigo demonstrar algum tipo de incômodo sem maiores danos ao relacionamento.

No final das contas, é muito difícil se desligar completamente desse sentimento quando você gosta de alguém. Mas você pode escolher não externalizar esse sentimento de forma danosa, tenha mais empatia com quem está ao seu lado.

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