nós, os terroristas do sono.

você tem um bebê recém-nascido em casa. as pessoas querem saber como você está. e aí elas fazem perguntas tipo essas:

como você está, tirando as noites mal dormidas?
o bebê já dorme a noite toda? (nem sabem a idade do bebê e perguntam isso, é impressionante)
você já virou um zumbi? (JURO que ouvi isso)
sono é pra ser tranquilidade, e não terror e pânico.

nós viramos terroristas do sono. e é um terror instalado no inconsciente coletivo das mães e de quem convive com elas. se não estivermos bem preparados, o anoitecer já vira um monstro: "será que o meu bebê vai dormir esta noite?". amigues, precisamos melhorar isso.

os bebês precisam aprender o que é dia e o que é noite, e isso demora. provavelmente não será possível voltar à rotina de sono que a gente tinha antes, a gente vai precisar recriar as rotinas. mudar tudo. os bebês acordam porque sentem fome, frio, saudade da mãe, medo do berço, sei lá. qualquer coisa pode ser suficiente para um bebê acordar — a qualquer hora do dia e da noite. e tudo bem.

vamos dar as mãos e cantar juntos: mães irão acordar muitas vezes nas madrugadas. e fim. SEM TERROR. é preciso tirar o foco disso. acordar, amamentar, cuidar, dormir. simples.

é simples. :P

enxergo duas questões problemáticas envolvidas nessas frases ali de cima e nessa energia toda que a gente coloca na questão do sono das mães e dos bebês. a primeira é que estamos determinando que não dormir 8h seguidas é ter uma noite mal dormida. e eu até concordo com isso, para uma vida antes de ter filho, quando temos escolha, mas é impossível dormir 8h seguidas quando há um bebê para ser cuidado e alimentado. então por que comparamos duas experiências completamente incomparáveis? estamos querendo nos sentir frustrados? queremos gritar pro mundo que agora somos vítimas dessa rotina absurda de ter que acordar pra cuidar de alguém que já sabíamos desde sempre que iria depender exclusivamente de nós?

(fui amamentar, voltei e esqueci o resto do texto. a vida tem dessas.)

lembrei.

continuando, a outra questão que envolve essa tortura da cobrança pelo sono é algo que li em um livro muito bom chamado Manual Prático de Aleitamento Materno, do Dr. Carlos Gonzalez.

peguei emprestado na biblioteca da clínica onde a Florinha vai à pediatra ❤

assim como o estado emocional da mãe durante a gravidez interfere diretamente no desenvolvimento do bebê, o que a gente pensa e sente durante a amamentação também interfere diretamente nas mamadas e nas emoções do bebê. se a gente passar os dias estressando sobre o sono, o cansaço, os medos e as dificuldades, vamos secretar mais adrenalina, hormônio que vai parar no leite e vai deixar, consequentemente, nosso bebê mais agitado.

Quando o organismo passa por uma situação de estresse alto, estresse e cansaço físico, nervosismo, hipoglicemia, jejum prolongado, hemorragias, etc. há um estímulo a produção de adrenalina, que atua principalmente nos órgãos periféricos, provocando dilatação da pupila, taquicardia, tremores, sudoreses, etc. como reações de “fuga”. — daqui.

também tem aquele exemplo ótimo da mãe que tirava leite durante o dia e dava para o bebê durante a noite. e o bebê não dormia de jeito nenhum. o que acontece? os hormônios que ajudam o bebê a dormir estão no leite que o bebê mama à noite. então pra dar tirar leite e dar ao bebê é preciso que ele seja tirado no mesmo turno que o bebê vai tomar.

então vamos ficar calmas e tranquilas, acordar quando for preciso, dormir quando for possível e nos entregar a essa experiência linda que é estar dando a vida, a cada mamada, para os nossos bebês?


e os amigues?

os amigues, família, pai, mãe, marido, esposa, namorado, namorada (e todxs ao redor), todo mundo pode:

  1. parar de perguntar sobre o nosso sono. substituir isso por massagens nos pés.
  2. servir água pra gente. bebê pegou o peito, você corre e serve água. nem pergunta se a mãe quer. só serve, sorri e entrega pra ela.
  3. fazer comida. comida diferente, muita comida, comida de todos os tipos, países, gêneros e espécies. comida. co-mi-da. eu tenho mais vontade e necessidade de comer agora do que quando estava grávida. estou com muito desejo de comidas diferentes. mundo, me surpreenda com a sua gastronomia. rá.
  4. não fazer muitas perguntas que exigem raciocínio, do tipo: "o que você quer almoçar?". não sei. não tenho ideia, oh céus, não consigo responder essa simples pergunta, onde foi parar meu cérebro? cadê meus neurônios? no peito, só pode.

então, resumindo: as noites não são de 8h de sono como eram antes. o dia também não é mais linear e organizado. às vezes são 3 da tarde eu acho que são 7. às vezes eu tomo café da manhã de madrugada e janto enquanto é dia. tem dias que quero me sentir linda e fazer as unhas, em outros fico de pijama e pantufa — e me sinto linda assim também, porque a autoestima é o que mais vale nesse momento.

de resto, só é preciso ter apoio, pessoas que mandam whatsapp dizendo estou indo aí deixar comida pra você (❤ jules). porque amor não falta.