seja você agora.

estou aqui num café delícia em SP. ainda. desde às 10h. já encontrei várias pessoas conhecidas desde que cheguei.

uma delas precisa de uma pessoa para trabalhar na sua equipe. talvez eu conheça exatamente essa pessoa que ele precisa. conexão legal, né?

fiz reunião, tomei café, fiz Skype, senti aquele cheirinho de café recém moído de novo, respondi emails, ouvi playlist de Pop Nostalgia delícia do Spotify (imperdível, por sinal).

sigo aqui.

sentei em um balcão bem bacana, pessoas falando de comida aqui do lado. interessante.

respiro fundo e falo comigo mesma: “mari, não puxa papo, deixa as pessoas, não se mete”. tinha alguma Mari dentro de mim falando com alguma outra Mari dentro de mim. talvez a versão Mari original, aquela que veio de fábrica, brigando com a Mari versão ~o que os outros vão pensar disso?

às vezes parece que eu tenho várias Maris dentro de mim. como eu sou a pessoa que faz listas, eu fiz uma lista dessas criaturas que habitam meu corpo. se você se identificar, faça uma lista das criaturas que habitam seu corpo e seus dias também. parece que trazer as coisas para a consciência é mais de meio caminho andado para conseguir superá-las.

  1. tem a versão Mari “por que eu resolvi empreender e não ter um emprego fixo e ficar de boas batendo metas ganhando bônus tirando férias de 30 dias e fazendo carreira num lugar só?”. essa Mari tem o sobrenome medo. ela ronda meus pensamentos e sempre me faz achar que sou menor, mesmo quando ela nem sabe a quem me comparar. essa maldita.
  2. existe também aquela Mari não tão legal, não tão boa o suficiente, aquela Mari que sempre vai dar errado e fazer merda e fazer tudo errado e fazer merda. ela também atende pelo apelido de insegurança. e ela aparece mesmo que eu não chame, sabe?
  3. de vez em quando aparece uma Mari que confia na vida, no Universo, nos passarinhos, no fluxo das coisas, no seu trabalho e no seu potencial. quando ela aparece eu saio correndo atrás dela tipo criança (ou alguns adultos, né?) catando Pokemon e peço pelamordedeus fica pra sempre por aqui, preciso de você. ela nunca fica mais que algumas horas. essa Mari nasceu bem alegre, quando pequena as pessoas costumavam chamá-la de autoconfiança.
  4. tem a Mari remix, lançamento novo. ela mistura várias coisas numa edição só. é tipo uma boneca que, ao apertar a barriga, dispara frases como: ninguém vai dar valor pra isso. ninguém quer saber sobre isso, não adianta falar. isso é bobagem, não vai fazer a diferença. ela cobra, também, essa maldita: viu, postou e ninguém curtiu, hahahaha, bem que eu avisei! (dá vontade de dar uma aula de algoritmos do Facebook pra ela, aí talvez ela entenda que por mais legal que seja seu post, se não for pago / numa página milionária em likes, ninguém vai ver. e aí ninguém vai curtir, por consequência.) ah, ela também solta aquela clássica: quem você pensa que é pra achar que entende desse assunto? não raramente, essa Mari se irrita com pessoas que demonstram poder e conhecimento sobre qualquer assunto. ela acha que todos são farsas, mas isso nada tem a ver com os outros. é que ela morre de pavor de se sentir uma farsa. o que ela nunca é, por sinal. procuramos aqui nos registros outras denominações para essa Mari, mas a única coisa que conseguimos dizer foi: sua insuportável. prometemos que se encontrarmos alguma outra informação relevante, informaremos todos. (mas desejamos fortemente que não apareça mais nada sobre essa Mari.)
  5. tem uma outra Mari bem doida que acha que tudo tem que ser perfeito, mesmo sabendo que isso é matematicamente logicamente fisicaquanticamente — inventei essa palavra — impossível. essa Mari precisa ser internada. ou tirar um sabático, meditar na Índia, qualquer coisa do gênero.
  6. no meio dessa lista quase 100% caótica existe uma Mari que quer muuuuuuito que todos os seres humanos sejam felizes, realizados e alcancem seu potencial e seu propósito de vida. essa Mari está sempre por aqui e por ali. ela se assusta, ela me assusta. mas ela nunca desiste, mesmo. bem que umas Maris podiam tirar umas férias e dar mais espaço pra essa Mari ocupar o espaço por aqui, não acham?

um amigo meu uma vez disse que estava cansado de ser várias versões dele mesmo. e é verdade, esses diálogos internos cansam. essa desconexão entre o pensar, falar e fazer demandam mais energia do que a gente tem, sempre. paz é pensar, falar e fazer a mesma coisa, disse o Mestre.

cada dia que passa a conta de não sermos nós mesmos fica mais cara, mais pesada, mais difícil.

minha companheira de reuniões e uns lambes inspiradores no viaduto da sumaré: seja você agora.

esse corpo que eu carrego continua sentado no café do início desse texto. essas Maris se debatem. pensando “por que mesmo eu estou em dúvida se devo ou não ser apenas a Mari, aquela Mari, aqueeeela. aquela que não pensa tanto, que apenas é. que quer conversar, conhecer, trocar, fazer um elogio, dar um abraço, ser legal e fazer as pessoas mais felizes?”.

resolvo dar uns pontapés nessas Maris. continuo ouvindo aquelas duas pessoas ao meu lado falarem de comida. agora entraram na parte de doces. como eu sou aquela pessoa que gosta mais de falar sobre doces do que efetivamente comer doces, me interesso mais ainda.

a Mari insegura estava escondida debaixo do balcão. SAI DAQUI, eu digo. ela se manda. eu dou oi pros estranhos. eles gostam. a gente conversa. a gente se conecta. trocamos ideias e quem sabe até possibilidades de conversar novamente sobre projetos e eventos. eles são simpáticos, gentis e educados. talvez eu também seja. trocamos cartões, eles vão embora e eu sento novamente no balcão. respiro fundo e digo: valeu, Mari, por ser você mesma. você acaba de fazer novos amigos.

ser a gente mesmo apavora. assusta.

e se alguém não gostar? e se alguém criticar? e pior… e se alguém gostar? e se vários alguéns gostarem? e se a gente encontrar um caminho de felicidade e prosperidade? e se a gente inspirar outras pessoas? e se as pessoas gostarem da gente? COMO FAZ? O QUE ACONTECE?

nada. se o seu trabalho for útil pra alguém, não importa. se ele não for, também não importa. se gostaram, se não gostaram, se é bom ou ruim na opinião de qualquer outra pessoa. foda-se, desculpem.

o que importa é o seu movimento em direção ao seu chamado. o que importa é o seu caminhar, o seu jeito de trilhar a belíssima jornada da sua existência. uns passos para a esquerda, uns outros para a direita, ajustes aqui e ali. certo ou errado. não importa. a única coisa que importa é silenciar essas diferentes percepções de você sobre você. e quando tudo for vazio, você brilha e cumpre o seu papel aqui neste mundo, bem agora. não tem outra forma: você precisa ser você. agora. ❤