você não é especial e as coisas não são contra você.

eram quase 5h da manhã, peguei um uber para o aeroporto de guarulhos. desde ontem à noite estou com um pensamento fixo, uma voz lá de deeeeentro de mim que fala: não, você não é especial. isso não é ~contra você.

tem tanta coisa maluca acontecendo ao mesmo tempo, mercúrio ainda retrógrado (SEXTA ACABA, GENTE!), nada se encaixa direito, mas fico com meus pensamentos focados em: não é comigo, não é contra mim.

preciso voltar algumas páginas para explicar direito a história. vamos comigo?

em algum momento da vida a gente assumiu que as coisas que acontecem conosco são pessoais, contra ou a favor, boas ou ruins, certas ou erradas. tudo virou pessoal. alguém sabe quando foi que isso aconteceu?

nesses últimos dias passei por uma série de coisas que alguém facilmente diria ruins / credo / nossa / que horror. também fiquei tentada a dizer. e por alguns momentos senti. e muito.

no sábado passado um ser humano do sexo masculino invadiu o banheiro onde eu estava de boas fazendo xixi. ele me seguiu desde a entrada do posto de gasolina, veio atrás de mim, entrou no banheiro, eu abri a porta e ele estava ali pronto pra pular em cima de mim. pânico. estamos em 2016 e não se fala em outra coisa, gente. o que acontece conosco que ainda temos esse essa mania de abusar das pessoas? fui salva por um estranho, estou bem, chateada, mas continuo respirando sem a ajuda de aparelhos.

era comigo? você pode responder que sim. claro que era. ele veio atrás de mim, ele ia pular em cima de mim. mas eu realmente acho que não era contra mim, não. o fato de um homem querer abusar de uma mulher é algo exclusivamente dele. não sou especial por isso. é ele que está enfrentando problemas, que deve sofrer para caramba e está aprisionado nesse instinto maluco. se tudo que todas as pessoas fizessem ao nosso redor fosse contra / a favor da gente, viver ficaria insuportável.

no dia seguinte, entrei num avião, sentei no lugar errado. troquei de lugar para o meu assento marcado, três fileiras à frente. ao lado de uma pessoa que teve uma convulsão. uma pessoa grande e pesada, tendo uma convulsão ali ao lado durante uma turbulência também grande e pesada. pernas tremendo (as minhas e as dele). o que fazer quando isso acontece? como ajudar uma pessoa nesse estado? por que passamos tantas horas estudando tanta coisa na vida e ninguém nos ensinou coisas como: o que fazer quando tentam nos atacar no banheiro / as pessoas têm convulsão ao nosso lado?

(do alto dos meu 160cm eu trocaria facilmente todas as aulas de basquete no colégio, por exemplo, por algumas poucas horas de defesa pessoal.)

mantenho o bom humor. ou tento. tudo que pode acontecer de ~torto acontece. pessoas esquecem de me avisar coisas, eu sigo fazendo uma coisa que não precisava porque pessoas esqueceram de me avisar coisas. tento falar com pessoas, elas não respondem. fico confusa, estagnada. porra, mundo, o que fiz de errado, sabe?

chorando. triste. com raiva. mas preciso lembrar, de novo: não é pessoal.

o rapaz na sua frente caminha devagar demais? não é contra você. as pessoas demoram para organizar suas malas e sentar na sua poltrona? não é contra você. as companhias aéreas insistem em fazer aquele X com as duas partes do cinto de segurança, o que faz com que você não possa achar seu lugar e sentar. você tem que se abaixar, desfazer o X e sentar. ou escolher sentar em cima da fivela do cinto, o que pode ser bem desagradável. mas juro, mesmo, não é contra você.

quando entrei naquele uber do começo do texto, ainda na madrugada, a maria bethânia cantava: "a arte de sorrir cada vez que o mundo diz não". parece uma piada, mas, de novo, não é contra você.

cheguei ao aeroporto. no raio-x, o senhor querido da segurança me oferece passagem. agradeço. gentil, ele né?

ele fala comigo: "a senhora foi aleatoriamente escolhida para uma inspeção completa". bingo. É COMIGO ISSO AGORA, ENTÃO. um pequeno monstro dentro de mim começa a querer pular pela minha boca, juro. é c-o-m-i-g-o. só comigo. fim dos pensamentos positivos, das meditações, da atenção plena, da consciência.

ensaio algo tipo "mas é que não vai dar", e ele me corta: "precisa abrir todas as bolsas, tirar casaco e tênis". ah, não. agora ficou sério. eu ODEIO tirar e colocar os tênis. juro pra vocês. eu tenho em casa 3 pares de tênis. o que mais uso é um branco, aliás, uso ele quase todos os dias, mas ele é muito complexo de colocar. uma vez briguei com ele, juro.

"eu te odeio, você é muito difícil de colocar, vai se catar!". eu disse coisas do tipo. furiosa. (meu marido assistiu a cena e deu boas risadas). estamos de mal até hoje. eu e o tênis. agora eu ainda tenho que tirar os tênis e o casaco, tá frio, são pouco mais de 5h da manhã e o mundo acaba de se comprovar o lugar mais injusto pra se viver.

"para completar a inspeção, vamos olhar suas bolsas, ok?". como se eu tivesse escolha. todas as coisas que organizei, dobradinhas, com todo meu amor e TOC possíveis, agora estão bagunçadas em uma bandeja suja de aeroporto.

são eventos cotidianos da vida da gente, que somados vão nos ajudando (ou não) a criar padrões de resposta, de comportamento, de reação. e por que a gente sente que as coisas só podem ser pessoais? porque a gente vive de expectativas. os meus exemplos são pequenos, podem até parecer mimimi de uma pessoa que tem uma mega sorte na vida e está reclamando, mas por trás disso temos as mesmas emoções, todos os seres humanos, independente da forma como se manifestam. todo mundo, mas todo mundo MESMO, tem algum tipo de expectativa criada na vida. e meu convite é refletir sobre isso, não importa a manifestação na sua vida diária.

eu, Mari, espero que o mundo todo seja rápido e prático porque não tenho tempo a perder, quero fazer muita coisa, ajudar as pessoas, fazer eventos legais e tentar causar alguma mudança positiva nesse mundo. aí eu espero não ter que passar por tanta burocracia no raio-x. tem gente que entra com arma em aeroporto e mata seres humanos porque estava com ciúmes e eu só tô aqui com meu pijaminha e uma blusa extra na bolsa para viajar e dar aula, me deem um desconto. mas isso é o que eu espero.

quando eu espero alguma coisa e essa coisa acontece diferente, imediatamente surge aquela sensação de que foi pessoal, mas não foi.

você esperava que a pessoa fosse bacana, mas ela copiou seu projeto e te deu um pé na bunda depois? não foi pessoal.

você esperava que alguém tivesse ~o mínimo de consideração por você depois de tudo que você (complete aqui) por ela? e aí ela não teve e você está puto da vida? então por que você esperava? se não esperasse, a vida seguia e você não ficaria frustrado.

é uma utopia viver essa vida totalmente sem expectativas. mas para mim também é uma busca. já falei sobre isso aqui, fico tentando criar jeitos de ensinar meu cérebro a ser assim todos os dias, mas às vezes não dá.

talvez o primeiro passo, no meio dessa bagunça toda, seja apenas entender o que você espera. do seu trabalho, das pessoas do seu trabalho, da sua família, do seu marido / marida, dos amigos, dos clientes, de você mesmo, das suas férias, do metrô, dos motoboys, do moço da padaria, das plantas da sua varanda que ficam murchas e felizes, murchas e felizes de novo, e não dá pra entender se elas morreram ou não, porque todo dia parece algo diferente do dia anterior (especificamente sobre as plantas, agora eu só espero que elas sejam plantas, desisti de tentar entender o que acontece). quando você entende o que você espera disso tudo você entende também pra onde está indo a sua energia.

se eu passar algum tempo da vida esperando que meus clientes não mudem de ideia sobre projetos, eu vou ser extremamente frustrada, porque eles sempre vão mudar. eventos são dinâmicos e mudam. a minha saída foi aprender a me divertir com isso.

cada tempo esperando algo é desperdício. cada tempo servindo, fazendo o que precisa ser feito simplesmente porque precisa ser feito é tempo iluminado. faz e entrega, em silêncio.

às vezes não vai ser nada fácil, principalmente quando envolver tirar os tênis mais complicados que eu tenho, ou quando envolver as sombras e trevas da minha personalidade, ou ainda o barulho contínuo e irritante de pessoas abrindo pacotes plásticos. mas daí chamemos a maria bethânia e tentemos, todos juntos, aprender a arte de sorrir (com o coração aberto) cada vez que o mundo diz não.

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