A vida é perder um monte de coisa que a gente nem sabia que queria. É como quando você é adolescente e tem um amigo, e realmente acha que ali só tem amizade, até que ele começa a namorar sua amiga e então você chora um pouco escutando Taylor Swift e tudo bem.

Foi numa segunda-feira que soube que estava gravida. Eu não queria ser mãe, sempre tive medo de perder minha identidade para identidade “ser mãe”, tive medo de morrer no parto e principalmente da responsabilidade de criar uma criança da maneira certa. Eu nunca quis ser mãe, mas então eu quis, muito.

Quis querendo mais tempo para ser eu e não a mãe, quis com medo de não ser uma mãe boa o bastante e meu filho ensinar palavrão pros coleguinhas de sala, quis com medo dele crescer e resolver fazer jornalismo porque não sabia mais o que fazer. Mas, como disse, a vida é perder as coisas que a gente nem sabia que queria.

Como quando você é criança e acha um brinquedo muito bobo, e sua mãe pergunta se você quer um e você diz que não porque realmente é um brinquedo muito tosco, até que você vê seu primo brincando com ele e percebe que é o melhor brinquedo do mundo. Então você pega o dele e quebra porque se não é seu não vai ser de mais ninguém.

Também em uma segunda-feira esperamos o médico falando sobre qual casa nós seriamos em Hogwarts e qual nosso filho seria. No domingo a noite fizemos um bolão pra saber se era menino ou menina e, mesmo achando que era uma menina, torcemos pra ser um menino e ter uma vida mais fácil no mundo machista. Na segunda não importava mais quem ganhou o bombom no bolão, a bebê não tem a menor chance de viver mais que algumas horas fora da barriga.

Não acho que caiba nesse texto o porquê, mas se estiver se sentindo curioso joga no Google imagens holoprosencefalia, talvez você não fique mal como eu fiquei, é compreensível. O que realmente importa aqui é o que venho falando desde o início desse texto e não vou mais repetir: a vida é só perder um monte de coisa que a gente nem sabia que queria.

Quando isso acontece às vezes você chora um pouco e passa. Às vezes você extravasa quebrando coisas e passa. Às vezes você chora, quebra coisas, desconta em gente que não tem nada a ver e não tem ideia mais do que fazer pra passar, só resta acreditar que passa.

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