Webdoc “Filhos do Terror”. Imagem: Reprodução

Webdocumentários e revistas on-line: produtos conhecidos, experiências renovadas

Por: Giovana Baggio e Mariana Cossa

Possibilidades ampliadas

O termo “documentário” começou a se popularizar a partir de 1926, quando o escocês John Grierson cunhou a expressão em resenha publicada no jornal New York Sun para designar Moana (1926), de Robert Flaherty. (DA RIN, 2006 apud OLIVEIRA;VARASQUIM, 2016, p. 6).

Entre as nuanças presentes no significado da expressão documentário, o que cabe ou não a essa categoria, está a característica de preservar a memória, de possuir caráter de documento. “De fato, a noção de documentário, no audiovisual, é subsidiária da noção de documento no sentido que lhe dá a História como disciplina: prova da verdade” (MACHADO, 2011, p. 7 apud OLIVEIRA;VARASQUIM, 2016, p. 5).

Seguindo a característica de adaptação às novas ferramentas midiáticas, veículos de comunicação, grandes produtoras, amadores etc. construíram uma importante extensão dos já conhecimentos documentários: os webdocumentários. Os conteúdos (jornalísticos ou não) seguem a mesma característica dos documentários em sua origem, sua maior diferença se encontra na forma como é apresentado ao público.

Oliveira&Varasquim (2016) definem webdocumentário como uma união de uma narrativa documental com o meio digital. Os documentários exclusivos para web, conforme os autores, oferecem uma experiência visual diferente dos documentários para TV ou cinema porque dão a possibilidade de dinamismo e principalmente de interação à experiência.

Gifreu (2011, apud OLIVEIRA;VARASQUIM, 2016, p. 8) define duas modalidades importantes que diferenciam os conteúdos produzidos para a web: a interação e a navegação. A navegação propõe novas formas de visualizar o conteúdo e a interação propõe um cenário “em que o usuário se converte em emissor, já que pode deixar uma marca de sua passagem pela obra” (2016, p. 8).

Como são produzidos somente para internet, os webdocumentários abriram um novo espaço para produções amadoras — já que a distribuição e divulgação em cinemas e emissoras de televisão é cara e muitas vezes inviável. Universidades, ONG’s, associações filantrópicas, entre outros, podem se beneficiar com os webdocumentários: neles há a oportunidade de divulgar suas ações sem custos exagerados.

Webdoc: Eu sou Amazônia

O webdoc oferece interação e os caminhos de exploração dependem do usuário. Imagem: webdocumentario.com/reprodução

Um bom exemplo de webdocumentário que segue as características interação é “Eu sou Amazônia”, produzido pelo cineasta Fernando Meirreles com o Google Earth. No total são 11 histórias organizadas em capítulos. O usuário é livre para navegar na plataforma de acordo com suas preferências

O mapa é é essencial para visualizar o território. Imagem: Google Earth/Reprodução

A experiência depende fundamentalmente do usuário, que pode navegar por toda a extensão do território e conhecer suas histórias, contadas para mostrar a realidade da floresta Amazônica e tribos indígenas lá residentes. O mapa do Google Earth é usado para que o usuário escolha os caminhos e visualize as paisagens e cenários presentes nos webdocs, tudo como um complemento do conteúdo.

Eu sou Amazônia mostra como os webdocumentários podem ser revolucionários no sentido de exploração do conteúdo e liberdade de trabalhar com os documentários, desde sua disposição no layout até em sua distribuição como material midiático.

Assista aos webdocs clicando aqui

Trailer de “Eu sou amazônia”. Vídeo: Youtube

Revista e convergência de meios

E foi na Alemanha, em 1663, apenas 200 anos depois da criação da prensa de Gutemberg que surgiram as revistas. Neste período as revistas eram levadas de modo mais didático,o diferencial era apenas o mesmo assunto sendo assinado por diversos outros da época, porém com o tempo, foram ganhando conteúdos mais dinâmicos, sobre interesse geral da sociedade.

Uma das primeiras revistas brasileiras foi a “As Variedades”, a mesma tinha um caráter de produção bem parecido com o modelo internacional. Neste periódico cultura, saúde e vários outros assuntos de diversas áreas eram abordados.

Primeira revista brasileira impressa no século XIX em Salvador, Bahia. Imagem: Reprodução/Estante Virtual

No meio online, por uma sociedade que anseia sempre por coisas rápidas, fáceis e que estejam numa timeline na palma de sua mão, a revista também precisou mudar de espaço. Apesar de ser mais próxima do público e de sua forma irreverente de escrita, a revista é um produto, sendo assim, necessita de um modo de se manter no mercado, verbas para continuar a produção e manter sua equipe e afins.

Com a alta popularidade da internet, o público consumidor do impresso migrando para o novo, foi necessário também a adaptação desses periódicos para se manterem em circulação. A mudança se fazia necessária 50% por seu público e 50% pela decadência do investimento publicitário no impresso, então foi necessário uma virada na produção e disseminação desse conteúdo.

O modo como as revistas seriam produzidas também iriam mudar com o novo meio em que estavam “habitando”. No meio impresso, o conteúdo podia ser analisado e escrito com maior cautela, por existiam bons períodos de tempo de intervalo entre cada publicação de edição. No meio online o conteúdo poderia precisar ser atualizado e inovado em menor tempo. A diagramação, produção fotográfica precisava continuar correspondendo às expectativas de seus leitores, porém, com mais frequência e rapidez.

Em âmbito internacional as revistas pioneiras no meio online foram Forbes, People, Fortune e Business Week. Já no Brasil a Manchete iniciou seus trabalhos em 1995 seguida por IstoÉ e Veja um ano depois. Tais revistas abrangem os principais assuntos abordados em revistas de consumo que podem ser separados em três grupos:

Interesse geral: Notícias, mundo das celebridades, televisão, principais fatos do mundo.
Segmentadas por público: Dirigidas e escritas para determinados públicos.
Segmentadas por interesse: Fotografia, viagem, dicas de beleza, gastronomia…
Revista Manchete em seu modelo impresso e seu atual portal online. Imagem: Giovana Baggio 2018

Para a mudança de plataforma as revistas precisam preencher necessidades essenciais no meio da web que são:

Interatividade: Criar e manter formas de estar sempre em contato com o consumidor.
Personalização: Disponibilizar uma plástica para o site que permita que o usuário esteja sempre em contato com seus principais assuntos de interesse.
Instantaneidade: Produzir conteúdo com rapidez.
Multimidialidade: Produzir seu conteúdo e permitir que o mesmo seja visto em diversas mídias sociais, para estar disponível a todo o público.
Exemplo do conteúdo da Revista Veja sendo disponibilizada em diversas plataformas digitais e no meio impresso. Imagem: Giovana Baggio 2018

Toda essa trajetória das revistas podem por fim, nos mostrar que desde o momento de sua criação até suas presentes mudanças, as revistas trouxeram e ainda trazem uma importante “convergência de meios” que foi caracterizado por Jenkins (2009). Tal termo significa o fluxo de conteúdos sendo disponibilizado em inúmeras plataformas atuais de mídia e acompanhando seu público migratório.

Referências

GIARRANTE, Ana Carolina. Aplicações da narrativa multimídia e do webjornalismo em revistas on-line. 9º Interprogramas de Mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero, 2013. p. 15

MUNDO ESTRANHO. Como surgiram as revistas?. 4 de jul. de 2018. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-surgiram-as-revistas/> Acesso em: 20 de ago. de 2018

OLIVEIRA, Luiz Fernando de; VARASQUIM, Marcela. Webdocumentário: múltiplas narrativas para o envolvimento com a realidade. Disponível em: <https://www.academia.edu/30059011/Webdocument%C3%A1rio_m%C3%BAltiplas_narrativas_para_o_envolvimento_com_a_realidade> Acesso em: 20 de ago. 2018

REZENDE, Renata; TAVARES, Denise. A grande imprensa e a produção de webdocs: a tradição documentária. Rizoma, Santa Cruz do Sul, v. 4, n. 1, p. 8, agosto, 2016. p. 8–23.

WEBDOCUMENTÁRIO. Fernando Meirelles e Google Earth lançam webdoc sobre Amazônia. Disponível em: <http://webdocumentario.com.br/webdocumentarios/fernando-meirelles-e-google-earth-lancam-webdoc-sobre-amazonia/> Acesso em: 21 de ago. de 2018.