Em um dias daqueles

Mariana Craveiro
Aug 29, 2017 · 3 min read

você acorda, olha pro lado, não tem ninguém.

Levanta, estala os ossinhos do pescoço em uma tentativa fracassada de se livrar de todas as tensões que se acumulam sobre os seus ombros.

O cheiro do café atordoa o olfato, você se ergue num sobressalto ansiosa pelo amargor do grão e na metade do caminho percebe que o aroma vem, na verdade, do apartamento ao lado. Daquela vizinha feliz e realizada que tem quem faça um café fresquinho pra ela todo dia.

Acompanhando o ritmo da chuva que se atira contra a sua janela, a ducha lava o que sobra de alma e recobra a coragem deixada no canto do quarto, no calor do edredom, no silêncio do sono interrompido.

Você, então, irrompe apressada com a esperança de alcançar o ônibus das nove; em vão.

A fim de evitar o desconforto do ponto lotado, você se deixa fantasiar sobre as tantas outras realidades paralelas possíveis, tão melhores do que aquela ali e agora. Falando em agora, a hora. A hora que você perdeu enquanto derivava observando a chuva lavar a alma da cidade.

Você chega atrasada no trabalho, o cabelo molhado, meio preso em um coque desarrumado.

Reunião-Reunião-Almoço-Apresentação-Café-Reunião-Reunião-Café-Pausa Para Ler A Caixa De Entrada-Café-Reunião; e nada de novo sob o sol. Que sol? Hoje não teve sol, nem arco-íris, nenhum prisma caleidoscópio que te distraísse do seu cinema noir particular.

Você tenta voltar pra casa mas as duas horas e meia de trânsito te arremessam novamente para outra dimensão, e você já nem sabe seu nome quando o cobrador te alerta a chegada ao Terminal.

E Terminal parece, de repente, uma forma apropriada de alcunhar o ponto onde você chegou. Refletindo vagamente, você decide que quase tão ruim quanto os grandes traumas, são os grandes nadas.

Ah, os dias que são grandes nadas.

Nada te farta mais do que nada.

E a solidão é, afinal, o mais nada dentre os nadas.

Você chega enfim em casa e larga as chaves na mesa. Uma gritaria abafada atrapalha o seu refúgio de paz: a vizinha ao lado berra odiosamente para o marido uma sequência de hostilidades que parecem ter algo a ver com a louça se acumulando na pia. Você acompanha a discussão ganhando força enquanto, veja a ironia, lava as suas próprias xícaras, placidamente. Você cozinha seu prato preferido e se serve de uma (seguida de outra, e depois outra, e outra) taça de vinho.

Com uma pantufa nos pés, divide a atenção entre uma garfada e a TV, que anuncia de forma sensacionalista a história de uma jovem que coagiu o próprio namorado ao suicídio. Quê?

O celular vibra no encosto do sofá, e uma notificação vem com gostinho de soco no esôfago.

Um caso antigo de amor, cheio de idas e vindas – nunca findas – propõe: “E aí? Vamos matar a saudade? Você sabe que eu não consigo parar de pensar em você.”

Há, há.

Engraçado, porque naquela semana o autor do convite havia compartilhado em sua rede social uma declaração de amor à atual companheira, teatralmente ilustrada por um anel de noivado.

Você respira fundo. A vizinha continua esganiçada, exasperada, cobrando companheirismo. O noticiário ainda dialoga sobre o crime bizarro de cunho passional. A mensagem segue ignorada na tela bloqueada do seu celular. Você reflete.

Ninguém manda na sua vida.

Ninguém comanda o seu destino.

Ninguém escolhe seu vinho.

Ninguém engana o seu instinto.

Quando você anda sozinha, começa a valorizar a gentileza de estranhos e a vastidão do amor próprio.

A solidão, então, comparada à companhia forjada e a insegurança de relacionamentos duradouros, passa a ser de longe o seu nada favorito.

Mesmo em um dia daqueles.

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    Mariana Craveiro

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