26 de agosto

não sei se alguma mulher já morreu de gravidez. não por causa de um parto difícil, ou por causa do rh, ou por causa de um aborto malfeito (morrer sozinha numa clínica clandestina é padrão por aqui), mas morrer por causa da própria gravidez. porque te furam com uma agulha de crochê bem no útero e você tem que ficar bem parada para não se machucar ainda mais; porque você sente cólicas mortais depois de uma porção normal de uma feijoada nem tão pesada assim, ou de fritura; porque ao espirrar sua virilha parece que entrou em erupção; porque em princípio não pode tomar remédio algum, e não parece normal levar uma semana pra se recuperar de um resfriado; porque ao tossir o seu corpo inteiro dói; porque o bebê se mexe alucinadamente por algum motivo e você pensa se o seu corpo está, de alguma forma, fazendo mal a ele; porque não pode beber; porque não há como imaginar o que é o parto nem como o seu, o desse bebê, vai ser; porque é preciso esperar quarenta semanas e nada pode mudar isso; porque o sexo fica mais complicado; porque desconhecidos passam a te ditar regras de conduta, de alimentação, de futuro, de tudo, e a colocar a mão na sua barriga; porque você não sabe se, ao andar no seu passo de gestante por uma rua meio vazia, meio escura, e cruzar com um homem que já te viu lá de longe, ele vai aproveitar que você não tem muita mobilidade e fazer sabe-se lá o quê ou se ele vai te respeitar, daquela forma machista que homens respeitam só sua própria mãe e a idolatram, porque você tem um filho na barriga.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.