Ana Teresa Barbosa

Pérola ou Primavera nos Dentes

Eu não preciso de ninguém para validar a minha existência. Parece óbvio.

Mas por muito tempo a minha existência dependeu da validação de outros. Dependeu da existência de outros.

Era só se ele estivesse do meu lado me dando o seu aval pra existir é que eu podia ser alguém.

Não é culpa dele. Eu permiti. Eu me doei tanto que eu me doei inteira e sumi e desapareci e me tornei invisível e deixei de existir. Ele me absorveu e eu virei um outro órgão não vital, um órgão vestigial que não se deu nem ao trabalho de inflamar para ser removido.

Virei sombra. Virei objeto de cena.

Mas eu não morri. Porque​ até pra morrer você tem que existir. Então eu estou nascendo. Eu estou surgindo. Eu broto.

Eu estou florindo. Agora eu existo aos poucos. Eu não preciso de ninguém pra validar minha existência. Nem pra me regar.

Eu uso esse adubo como ponto de partida. Toda essa merda é meu alimento. Eu vou criando raízes por cima do cadáver dessa relação.

Minha primavera vai ser linda. Você vai ver.