Louise Bourgeois

Os terríveis pecados de ser mulher ou Reflexões sobre o Carinho

Tenho me sentido incompleta, triste. Desanimada mesmo. Mas era sexta-feira. Dia de pagamento. Meu amigo me chamou para ir tomar uma cachaça.

Aceitei. Ligamos para outro amigo. Conversamos, comemos, bebemos, rimos.

Sabe, eu fui muito negligenciada no meu casamento. Eu sempre tive que mendigar por carinho. E eu tenho recebido tanto carinho dos meus amigos. Um carinho de graça, sabe? Um carinho em forma de cachaça, em forma de mensagens, em forma de piadas e risadas. Carinho puro, que vem do nada. Sem esforço.

E para mim essas poucas horas foram de carinho. Carinho não tem nada a ver com romance. Carinho é inerente a qualquer relação entre pessoas. Carinho é direito humano. Ou pelo menos deveria ser.

A minha família sempre foi muito carinhosa. Nós não nos beijamos e nos abraçamos o tempo todo. Aliás, a gente tem muito pouco contato físico uns com os outros. Mas como temos carinho! Como nos preocupamos! Como nos acolhemos!

Não é um carinho que está presente o tempo todo. Mas ele aparece nos detalhes. Ele aparece em uma ligação. Aparece em uma comidinha gostosa. Uma tradição de domingo.

E eu cresci dando uma grande importância para os gestos de carinho. Nem sempre é fácil. Às vezes a gente se quebra por dentro e não dá conta. Mas ao mesmo tempo não é um esforço sobrehumano para mim. É natural.

Mas não é todo mundo assim. Eu sei. A realidade é que talvez para os meus pais tenha sido uma luta conseguir nos dar todo esse carinho. Foi doloroso para o meu ex marido também. E talvez existam famílias muito mais carinhosas e funcionais que a minha. E existem, com certeza, famílias muito mais frias e disfuncionais.

Não estou falando sobre violência, porque​ isso é outra discussão. Eu falo de negligência emocional. Eu falo de educação emocional.

Para algumas pessoas, demonstrações de carinho gratuitas são estranhas.

Algumas pessoas só recebem carinho pela primeira vez quando iniciam suas vidas sexuais. Às vezes nem isso. Mas confundem atração física e tesão com carinho.

Mas elas também tem formado em mente que existe uma coisa chamada Carinho. E aprendem quais os personagens da vida merecem cada tipo de carinho: a mãe ganha beijos e flores. O pai ganha ferramentas e um tapinha nas costas (se você for homem, Deus me livre beijar seu pai). Os amigos homens ganham brincadeiras de lutinha, conversas sobre futebol. As amigas mulheres são mais delicadas. Entre si trocam risinhos e fofocas.

Quando é em um relacionamento romântico, a coisa muda. Aí o carinho é sempre sexual. Todas as ações devem ser voltadas para se obter sexo no final das contas.

E aí elas seguem a vida, entendendo que todos a sua volta estão cumprindo direitinho seus papéis nessa peça pré determinada por alguém.

Mas as coisas não são assim. A vida é mais confusa e complexa e bonita do que isso.

Voltando àquela sexta-feira. Eu aceitei o convite. E não só o convite, o carinho que estava sendo oferecido. E retribuí o carinho. Mas esse carinho entre nós não se encaixa dentro desses papéis. Nosso carinho não tem nenhuma ambição de ser mais do que é, porque somos pessoas acostumadas a dar e receber carinho.

Mas ele não foi visto assim. Ele foi visto como algo pecaminoso. Como algo sujo. E eu fiquei ofendida e triste.

Ofendida porque​ essa visão está ligada ao fato do meu amigo ser homem e eu ser mulher. Não apenas uma mulher, mas uma mulher SEPARADA. Não apenas uma mulher separada, mas uma mulher separada que resolve sair COM HOMENS e ousa se divertir. E pior, ousa beber com eles e conversar com eles de igual para igual. Uma mulher dessa não tem nenhuma intenção sexual em seus atos? QUE ABSURDO! QUE ABUSO! QUE AUDÁCIA.

Mas eu também fiquei triste. Fiquei triste porque essa é uma pessoa que não deve ter os amigos que eu tenho. Não deve receber o carinho em todas as formas e cores que eu recebo. Não deve saber a sensação de ser querida, de ser lembrada. Ações que não tem preço, que não precisam de ter retorno.

Eu sei o que é ser negligenciada. Eu sei como dói a solidão de estar com alguém que não te enxerga.

Mas eu também sei o que é ser querida. Eu sei o que é poder falar e ser ouvida. Eu também sei ouvir. Sei querer. Assim. De graça.

Pessoa infeliz, eu espero que você encontre o amor que eu encontro no caminho.

E amigos, eu amo muito vocês. E muito obrigada por todo o carinho.