Medo

Ele está à minha espreita. Corro e me assento o mais rápido que posso frente ao meu computador. Preciso fugir para algum lugar. Começo a chorar, limpo os olhos sem graça. Nem quero olhar para os lados, para não correr o risco de que alguém assista a esse meu espetáculo patético, repetido, quase diário. Preciso de um copo de água, de alguém que me dê a mão e me ajude a vencê-lo. Meu silêncio grita, mas ninguém pode escutar.

É só mais um trabalho, repito para mim mesma. Mas chega um momento em que o mantra se espatifa no chão e eu me lembro que a minha primeira experiência laboriosa, essa do dia a dia, também não foi diferente. O peso da responsabilidade, a sensação contínua e esmagadora de que eu simplesmente não sou capaz e não tenho sequer condição de estar onde estou, trazem o medo para muito perto.

Choro, alívio. Choro e escrevo, libertação. Há algum tempo atrás traduziram para mim o que me acontecia: “dom das lágrimas”. Não sei se em alguma narrativa cristã esse talento é descrito. Ele não me parece nada altruísta. Nas Escrituras, se algum lugar tivesse, creio que estaria entre os que servem para edificação própria. Porém, não consigo perceber muito bem em que medida ele me constrói ou me conduz ao bem. É apenas um eterno refazer-me.

Corre um pouco de mim neste pranto. Ou talvez da sujeira que há em mim. Aquilo que o amor lança fora. Não, não posso viver com essa mão agarrada à minha garganta, essa palavra entalada no peito, esse peso sem fim sob os meus ombros. E tudo se desfaz em lágrimas, antes que seja tarde demais. Antes que eu me perca em meus labirintos, antes que meus sentimentos me afoguem, antes que meus olhos embacem e eu não veja mais sentido algum.

Por essa límpida água, dom divino, sou grata. Há os que se secaram por dentro, há os que julgam que tudo é sentimentalismo e incapacidade de bem racionalizar. Eu sou grata por essa fonte. No limite de mim mesma ela jorra. Ela me traz de volta à Criação, à água viva, de um poço onde não se vai buscar água. Desobstrui-me do lixo existencial e, desafogada, consigo olhar mais uma vez para o alto.

Ele está ainda à espreita. Num canto de mim a sua presença indesejada ainda dói. Mas, respiro fundo. Engulo essa escrita que alimenta a minha alma. Lembro-me de que no início era o verbo, e de que o verbo se fez carne, e se deu como pão partido e vinho derramado. E não tenho dificuldade alguma em entender que Cristo e a linguagem, numa metáfora esplêndida, só podem significar, juntos, comida.

Preciso parar a corrida. Já me aquietei num canto tranquilo dessas entrelinhas. Minha alma derramou as suas lavas. O calor dentro de mim é testemunha. O tempo também escorreu. Mas, não quero pensar nisso agora. A graça de refazer-me é, enfim, uma dádiva. Sinto amor pelo que sou. Desenroscada de meu casulo, não hei de negar amor aos que hoje ver. Amo a Deus. E assim é lançado para fora de mim tudo o que não é verdadeiro. Recomeço.