Linchamentos, execução sumária, pena de morte e o “cidadão de bem”: o caos e a barbárie justificados, e a próxima vítima pode ser você

No dia 3 de maio de 2014, Fabiane Maria de Jesus, uma mãe de família que se recuperava de uma depressão pós-parto, foi barbaramente linchada até a morte por moradores do bairro de Morrinhos IV, na periferia do Guarujá. Ela havia sido acusada de bruxaria pela turba, confundida com um retrato-falado divulgado nas redes sociais, de uma suposta sequestradora de crianças, que as matava em rituais de magia negra. Ela saía de uma igreja e carregava uma Bíblia, que foi confundida com um livro de magia negra. Era inocente. A história não passava de uma lenda urbana. Ela deixou uma filha pequena.
Ela não foi a única. Basta uma pessoa ser acusada de algum crime e isso já é justificativa para ser linchada, pois “bandido bom é bandido morto”. Não há necessidade de julgamento nem provas, porque “pra que gastar dinheiro com bandidos? Tem que morrer na hora!”
O caso gerou comoção. Afinal, foi provado que ela era inocente. As mesmas pessoas que defendem o linchamento sem provas se revoltaram por terem linchado uma mulher inocente.

Cegas pelo ódio, as pessoas não conseguem ligar os dois acontecimentos: a defesa do linchamento sem provas e a morte de uma inocente.
Existem pessoas que são contra essa “justiça comas próprias mãos”, sem provas, sem julgamento. Quando se manifestam contra, são logo acusadas de serem “comunistas”, “defensoras de bandidos”, “escória”, e até mesmo ameaçadas de morte.

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Como não há qualquer seriedade na investigação e punição dos crimes e zero interesse na prevenção destes, é natural que a sociedade fique revoltada. O problema é para onde é direcionada essa revolta.
O que se percebe, até pelos comentários em redes sociais, é que as pessoas não estão nem um pouco interessadas na redução da criminalidade. Não adianta demonstrar que países que apenas endureceram as penas não tiveram redução alguma na criminalidade e que países que investiram em prevenção e ressocialização, sim. Elas querem mesmo é vingança, se refestelar em sangue — nem que isso custe vidas inocentes. Quando se tenta argumentar racionalmente, elas logo partem para o argumento mais irracional possível — “se a vítima um familiar seu queria ver você defender isso”. Elas usam uma situação em que a racionalidade fica suspensa para justificarem um ato irracional que tem altíssimas probabilidades de atingir o alvo errado e impedir um ato racional que dê resultados. “E quem pensa diferente é igual ou pior do que o próprio bandido, e merece morrer também”.

Até que você, cidadão de bem, ou seu filho, a caminho do trabalho, é confundido com um bandido e executado. Afinal, não vale a pena gastar dinheiro com investigação, julgamento, cadeia, nada disso. Tem que mandar direto pro colo do capeta. Isso vive acontecendo, basta acompanhar as notícias.
Aí, como aconteceu com o caso de Fabiane, vão se revoltar contra a própria lei da turba.