O que é apropriação cultural (e porque o conceito todo é burrice)

Nos últimos tempos, um tema tem sido muito discutido (e levado a ataques inesperados, a artistas e a pessoas comuns, em redes sociais) nos meios de esquerda: a “apropriação cultural”. No Brasil, os principais alvos são o uso de elementos da cultura negra por brancos, em especial o turbante, os dreads e as tranças afro. Nos EUA, onde a controvérsia surgiu, praticamente tudo está sendo considerado apropriação cultural, desde aulas de ioga até aprender línguas estrangeiras.

Para quem está por fora do assunto, apropriação cultural seria “a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente” (Wikipédia).

Essa apropriação se tornaria séria quando o elemento em questão pertence a um grupo oprimido sendo usado por um grupo privilegiado (como brancos usando elementos pertencentes à cultura negra). As razões pela qual isso seria errado variam de acordo com quem considera isso um problema.

O principal motivo citado é que, enquanto uma pessoa do grupo oprimido que criou o elemento cultural sempre foi mal vista por usá-lo, quando ele passa a ser usado por um branco (que no Ocidente é o grupo privilegiado), o branco passa a ser visto como “na moda”, “descolado”, “exótico”, enquanto que os próprios criadores do costume são “favelados”, “primitivos”, “não querem se adaptar aos nossos costumes”. Isso seria o mesmo que colonização e, portanto, racismo.

O problema é que proibir um branco de usar turbante não fará com que o racismo diminua, e permitir que use não fará com que aumente. Na verdade, proibir isso seria uma espécie de vingança dirigida a pessoas muitas vezes inocentes, “já que eu não posso ser feliz usando, ninguém será”. Até mesmo vítimas de câncer que fazem o uso do turbante têm sido atacadas em redes sociais.

Outro motivo alegado é que o uso de elementos de culturas diferentes da qual o indivíduo pertence implica em tirá-los de seu contexto original, pois o indivíduo jamais compreenderá totalmente o significado original. Nesse caso, o principal alvo são os bindis, o “terceiro olho” indiano que algumas pessoas usam na testa, quando usado por não-hindus. Alguns o usam por se identificarem com a espiritualidade indiana, outros apenas como enfeite, mas, de toda a forma, o significado seria “diluído”.

O problema é que a cultura nunca foi nem nunca será algo estático. Isso é acadêmico. É natural e inevitável que as culturas se misturem, sejam adaptadas e se transformem. Elas se transformam mesmo dentro do grupo de origem, que com o tempo adaptam e mudam os significados de acordo com novas necessidades. Proibir uma pessoa de expressar sua identificação com a espiritualidade indiana e divulgá-la, ainda que modificada, é não só proibir a liberdade de expressão, é impedir a cultura de evoluir, e a formação de novos elementos culturais. Não há nada de anti-ético nisso.

Um outro motivo bastante criticado seria que membros de nenhuma cultura podem ser usados como fantasia, pois isso é desrespeitoso. O alvo aqui são as fantasias de carnaval e Halloween, em que pessoas se fantasiam de sheik, gueixas e outros personagens. Isso alimentaria estereótipos e seria humilhante, pois se zomba dos grupos em questão.

Existem dois problemas sérios com essa afirmação: primeiro, que a intenção nem sempre é zombar, mas sim viver um personagem, uma fantasia. Segundo, que nada nem ninguém está imune a críticas. Não é crime nem anti-ético criticar ou parodiar.

Há a questão da indústria se apropriar de elementos de diversas culturas e, esvaziando-os de significado, torná-los palatáveis para as massas, vendendo-os apenas como moda, como aconteceu com a contracultura hippie.

Isso é inevitável e independe de indivíduos usarem os adereços ou não.

A última seria que se apropriar de elementos de outra cultura seria roubo. A pessoa da cultura que inventou ficaria sem, e você, que não teve o mérito de inventar, teria o elemento.

Grande bobagem. A pessoa não fica sem. Você so está duplicando. E a pessoa da determinada cultura não tem direito à exclusividade, visto que não foi ela mesma que inventou. Foi outra pessoa daquela cultura, geralmente sem o objetivo da exclusividade.

As pessoas que gritam contra a apropriação cultural quase sempre partem da premissa de que o homem branco é inerentemente racista e colonizador, e que queira ou não, apropriar-se de um elemento de outra cultura fará com que outros brancos a vejam dessa forma. Daí o uso de cabelo alisado e loiro por negras não ser considerado apropriação cultural, já que brancos não podem ser vítimas de nada mesmo. São sempre privilegiados. Elas separam seres humanos em raças, etnias e nacionalidades. Como os limites são subjetivos, isso gera brigas. Sobre se mulatos podem ser considerados negros a fim de usarem o turbante. Se negros brasileiros podem usar adereços de negros africanos ou de outras etnias negras. Se pode haver casamento inter-racial (sim, isso é discutido), já que as culturas devem se manter puras, não deveriam elas jamais se misturarem? Negros que se relacionam com brancas são chamados de “palmiteiros” por outros negros e atacados em massa.

Muitas demonstram sua hipocrisia, condenando o uso de elementos de determinada cultura, mas usando de outras, sempre com desculpas esfarrapadas baseadas na “sua” interpretação particular do que constituiria apropriação cultural (até porque não existe uma definição precisa, nem mesmo academicamente), a seu bel-prazer: porque “tal elemento não significa nada especial para aquela cultura”, porque “eu não estou zombando, só homenageando”, porque “todo mundo sabe o que isso significa e portanto o significado não está sendo diluído”, porque “eu, no caso, pesquisei o que ele significa e estou tentando comunicar isso”, etc. Mas atacam quem quer que poste uma foto com um adereço de outra cultura, ainda que seja por causa de um tratamento de câncer. É o universitário de gorro inca e tatuagens maori condenando o que usa dreads.

Há quem diga que o uso só se torna apropriação quando é não-autorizado. O problema é: quem autoriza? Enquanto muitos membros de determinada cultura gostam que ela seja adotada e divulgada por quem quer que seja, outros não querem que ela caia em mãos que podem desvituá-la. Quem é que manda? A pessoa que ataca? Nos EUA, um grupo de ativistas asiáticos da “justiça social” fechou uma exposição de kimonos, roupa tradicional do Japão, em um museu, alegando que isso era “apropriação cultural”. Nenhum deles era japonês. A comunidade japonesa protestou contra o fechamento, pois queriam divulgar sua cultura. De nada adiantou. Os ativistas, que nem eram japoneses, sabiam melhor do que eles, e tinham todo o direito de opinar, porque eram “asiáticos” também.

Grande parte das coisas que são consideradas apropriação cultural foram no passado difundidas através dos esforços de membros daquela cultura. A ioga, por exemplo, foi difundida por mestres indianos no Ocidente. Mas isso não significa nada. Eles eram, isso sim, traidores, que ousaram vender sua cultura e colocá-la nas mãos de brancos imundos. Ninguém deve ensinar nada para ninguém, cada povo deve ter a honradez me manter suas criações para si, e os outros que se explodam, já que não foram capazes de criar.

A verdade é que não existem, nem nunca existiram, culturas puras. A maioria das coisas que usamos e fazemos foi, em algum momento, emprestada de outra cultura. Tomar banho? Coisa de índio. O branco bom cristão tomava banho no máximo a cada 15 dias, de preferência nunca. Vamos parar de tomar banho e deixar de desvirtuar a cultura indígena. Matemática? Nem pensar. Os algarismos que usamos foram inventados na Índia e trazidos pelos árabes, bem como a álgebra. Mesmo os complicados e ineficientes numerais romanos são romanos, logo não devem ser apropriados. Passemos sem arquitetura, engenharia e tudo o que envolva matemática. Turbante para negros? Podem tirar o cavalinho da chuva. O turbante era originalmente usado pelos árabes, que conquistaram parte dos povos africanos e, como o turbante virou símbolo da classe dominante, os negros o adotaram para serem “chiques”. Macarronada? Esqueça. O macarrão foi inventado pelos chineses e o tomate foi tirado das Américas e levado para a Europa na época da colonização.

O bom mesmo é que tentemos nos livrar de toda e qualquer apropriação cultural.
Devemos vestir apenas calças sociais azul-marinho e camisas cinza (o branco não pode ser usado, pois tem diversos significados profundos em várias culturas e não pode ser usado em uma simples camisa), restringindo assim ao máximo o risco de apropriar alguma coisa de alguém nesse mundo. Não devemos usar qualquer adorno ou maquiagem (delineador, por exemplo, é coisa de egípcio) e devemos usar o mesmo uniforme durante todos os dias do ano. Chapéus, nem pensar, por mais escaldante que seja o sol, já que chapéus significam muito para os mexicanos. No inverno, paciência, passemos frio, já que o uso de blusas e casacos pode significar algo mundo afora. Melhor ainda, devemos nos manter escondidos debaixo da cama o tempo todo, para evitar que a apropriação cultural nos pegue de surpresa.

O mundo que esses “ativistas da justiça social” querem é assim. Um mundo segregado, de raças “separadas, porém iguais”, como dizia a Lei Jim Crow, em que ninguém compartilha nada, ninguém ensina nada, e cada um vive isolado em seu quadradinho fechado.