Plano de carreira ou plano de realização pessoal?

Lembro bem de quando eu era adolescente e vislumbrava um futuro profissional estratosférico, vestida com terninhos e salto alto, uma pasta chique e uma posição de chefia. Provavelmente, a Mariana de 15 anos atrás ficaria frustrada em ver a Mariana com seus quase 30 anos de tênis, sem maquiagem e trabalhando com um bando de pessoas idealistas e livres. Não sendo chefe de ninguém, apenas investindo no seu próprio potencial e sem ambição de crescer dentro da empresa.

Mas afinal, o que significa crescer?

Para muitas pessoas ainda é chegar na diretoria de alguma empresa importante. E tudo bem, há espaço pra elas no mercado, que ainda mantém as práticas de gerenciamento 1.0 e modelos de gestão tradicional. E eu não tô aqui pra julgar essas pessoas, cada um sabe o que faz e o que é melhor pra si mesmo.

Para muitas dessas empresas, os planos de carreira são uma realidade e uma forma de reter seus talentos com promessas de promoção, melhores salários, subordinados, salas melhores e uma posição bacanuda no cartão de visitas.

Mas hoje, eu estou aqui pra falar com aqueles que, assim como eu, não têm essa ambição.

Essas limitações, esse direcionamento engessado de onde eu devo chegar como profissional me passam um sentimento ruim. O que importa pra mim não é o meu papel, o meu cargo, mas o conhecimento que eu tenho e o que eu faço com ele.

Pra quem não me conhece eu trabalho como People numa empresa de tecnologia. Numa empresa tradicional eu seria uma gerente de RH ou, nas mais moderninhas, uma gestora de pessoas. Nessa mesma empresa eu trabalho com um time multidisciplinar que chamamos de Núcleo de Criação, composto por profissionais formados em marketing, design e eu, que sou cientista social.

Essa estrutura de trabalho me dá margens para ser livre, aprender coisas novas, descobrir novas aptidões e desejos todos os dias. Chega a ser meio confuso às vezes, porque todos trabalham juntos em tarefas das três áreas. Mas há crescimento: contínuo, diário, confuso e criativo. Meu objetivo a curto prazo, como profissional, é entender, conhecer e exercitar o máximo de possibilidades possíveis a favor de uma cultura organizacional que traga bem estar às pessoas.

Então, no final do dia, eu não penso muito na carreira que eu quero construir, mas penso muito na profissional que eu quero ser, nas práticas que eu quero ter domínio e o que eu preciso pra chegar lá. Não é a empresa que me dá as diretrizes para que eu me encaixe num modelo pré-estabelecido de colaboradora desejável; sou eu que, com minhas ambições pessoais, trago para empresa novas oportunidades de fazer coisas ligadas às pessoas e à cultura.

Você já parou pra pensar o quanto a sua empresa coloca limites para a sua evolução de acordo com as necessidades da própria organização? Ou nos limites que coloca para aqueles que você possivelmente gerencia? Na quantidade de possibilidades de inovação que seus colaboradores deixam de contribuir e realizar simplesmente porque não podem fazer algo que não seja atribuído ao seu papel?

Hoje, se eu procurasse um novo trabalho, provavelmente não seria aceita em um milhão de empresas por aí. Eu não tenho grandes certificados, nem grandes cursos na área de pessoas, não sei as leis trabalhistas na ponta da língua e nem fecho folhas salariais. Por outro lado eu trabalho com mídias sociais, tenho noções decentes de design, entendo conceitos de marketing, gestão estratégica, metodologias ágeis de desenvolvimento de software, crio conteúdos, palestro em eventos, participo de comunidades de construção coletiva de conhecimento e sei fazer um café dahora. Ainda que minha especialidade e foco profissional seja com desenvolvimento de pessoas. Conhecer um pouco mais sobre o trabalho dos meus colegas me torna uma profissional melhor e mais compreensiva.

Afinal, o que vale mais? Um profissional prontamente preparado por uma série de instituições ou um que tenha aprendido na prática, com outros profissionais, um pouco de cada coisa? Que compartilha conhecimento e aprende novos conceitos e experiências todos os dias? Que trabalha para ser um profissional e, principalmente, uma pessoa feliz?

O plano de carreira está com os dias contados. As pessoas são, cada vez mais, protagonistas das próprias escolhas. Vai por mim.