Hoje dançamos na cozinha de manhã
apesar da ressaca dos recentes acontecimentos
Nos últimos tempos há algo, sempre algo, acontecendo e nenhum dia parece propício para dançar mas
que bom que nos conhecemos em tempos mais delicados e era permitida certa felicidade ingênua que agora parece tão despropositada
naquele tempo acho que também coisas intragáveis aconteciam e só não tínhamos ainda as densidades de digeri-las
e hoje nos culpamos por não ter sentado à mesa no tempo certo e provado o amargo desse café antes e virado a mesa
(como se pudéssemos nós só por não adoçarmos o café virarmos a mesa)
Saber é sempre um salto e já faz alguns anos que estamos caindo
mas prefiro pensar que em qualquer tempo em que nos conhecêssemos inventariamos levezas como inventamos agora apesar da preparação pro dia de ponderação sombria de pesos e medidas
E perdas e mais perdas
Eu gostava de matemática no colégio quando estudava as somas
Não sei contar perdas porque são como contar nadas e ninguém tinha dito como o nada se avoluma
Talvez a professora de literatura, mas nós prestávamos mais atenção na gramática para brincar com as vírgulas das orações
que também é um jeito de rezar nesses dias tão sem crenças
Ao menos dançamos na cozinha de manhã.
como se o dia não fosse pisar no nosso pé
como se não fosse tão incongruente ser um pouco feliz
mas talvez seja mais incongruente não dançar na cozinha quando cada vez mais o que resta é dançar na cozinha
e abraçar como quem empresta armadura a cada despedida.
