Um brinde
Ou tudo que eu pretendia dizer
Como boa ansiosa que sou, desde que soube que seria sua madrinha de casamento, tinha imaginado tudo sobre hoje.
Acordei nem tão cedo, nem tão tarde. O sol invadia a janela sem ter sido exatamente convidado, mas o clima de setembro não deixava ele esquentar demais o dia. Dia perfeito, preguiça pós feriado, mal acredito que tem dois dias de fim de semana pela frente ainda. Dá pra se divertir bastante hoje.
O salão está marcado. Logo, a unha está feita com esmalte previamente escolhido. Alguns bifes não programados, mas faz parte do show. Os cabelos seguramente arrumados com grampos a mais. A maquiagem mais pesada do que gostaria. Chego em casa e lavo o rosto. Refaço meio malfeito. Não conte a minha mãe, ok?
Passo o vestido. Não consigo tirar todos os amassados, mas essa é a minha pequena rebeldia. Junto com a cor: rosa chá. Não exatamente o tom de rosa bebê da gravata do meu irmão ou dos vestidos das outras madrinhas.
Espero até o último segundo para pôr os saltos. Meus pés calosos rejeitam sapatos. Não apenas os stilettos, mas sapatilhas, sandálias, rasteirinhas, anabelas, tênis. Só toleram chinelos e o chão direto nos calcanhares.
Pegamos o uber. Sinto as mãos suadas, as entranhas se revirando em um arrepio gostoso, como se estivesse numa montanha russa.
Não consigo conter a emoção quando o vejo lá no altar. Trocamos olhares e sorrisos. Sempre soube que ele casaria primeiro. Tínhamos só dois anos de diferença, mas nunca tinha feito diferença na nossa amizade, cumplicidade, “primodade”.
Chegamos na festa. É minha hora de falar. Lembro imediatamente de um dia das mães na pré-escola. Era para cantarmos uma música para as nossas genitoras. Ensaiei por semanas, mas na hora nenhuma nota saiu da minha garganta. Fosse por timidez ou vergonha ou medo de me emocionar. Não sei, não lembro das minhas complexidades da época. Sei que no final da apresentação me agarrei no pescoço da minha mãe e só soltei quando tinha terminado de cantar a música.
Acho que dessa vez, mesmo encorajada pelo openbar e a carta previamente escrita, agora amassada e suada (como o meu vestido) dentro das minhas mãos, não seria diferente.
Só agarrada no pescoço de Matheus conseguiria dizer para ele tudo que eu sentia. Mesmo soluçando, mesmo sem jeito, mesmo sem conseguir dizer exatamente tudo que eu desejava e que eu esperava para o meu primo em seu casamento. Seria um segredo só nosso. Porque em público só dizíamos o quanto não nos amávamos.
Em todo aniversário, Natal e dia das crianças, era essa nossa brincadeira. Dizer que não ia passar o brigadeirão, pois “não te amo mesmo”… e logo em seguida sorrir e lhe partir um pedaço generoso, digno de vó. Se esconder no meu quarto por minutos que pareciam horas e sempre me dar um susto no final e eu gritar pra depois nos acabarmos fazendo cosquinha, “sai pra lá! Não te amo!”. Ou “Vamos ver A Nova Onda do Imperador?” “Eu não, não te amo mesmo” e depois ríamos até a barriga doer das mesmas piadas de sempre: “me transformaram numa vaca, posso ir pra casa?” “Vai com Deus”.
Hoje, não tenho coragem de dizer que não te amo (e quem tem coragem de dizer que não ama os mortos?). Porque todos os dias, desde que você se foi, eu só penso em como você era um dos meus melhores amigos e como deixei o tempo e as diferenças me afastarem de você.
Eu sei. Eu não era a prima perfeita. Não gostava de pagode, nem de cerveja. Não entendia as piadas do Chaves. Tinha medo da bola. Cagava regra. Dedurava vocês para minha mãe. Era péssima no videogame. Dormia cedo. Acumulava cartas em partidas de Buraco. Cansava rápido demais da praia. Cochilava no carro enquanto você dirigia.
Mas vivemos tantos dias incríveis. Tantas festas, tantas piscinas, tantos jogos, tantas risadas, esporros, segredos. Esse discurso é só mais um.
Hoje devia ser o dia mais feliz da sua vida. E um dos da minha também. Por isso, eu não quero pensar em tristeza hoje. Hoje não. Hoje só quero pensar que eu te amo. Sem negativas. Sem passado. Com futuro.
Obrigada por tudo. Tenho muito orgulho de ser sua madrinha!
Levanto o copo. Um brinde.
– À Matheus! – eu digo
– À Matheus! – todos bebem.