Atraso

No aeroporto, tentava me distrair com um livro para dissipar o ranço do atraso de um vôo. Eis que uma conversa aleatória ocorrendo atrás de mim começa a atrair minha atenção.

Não os vejo, mas pela voz identifico que são dois senhores, sotaque carregado e tom informal:

- Rapá, eu trabalhava como porteiro. Muitos anos, lá no Largo do Machado.

- É? Trabalhei por lá também, naquela rua da delegacia do Catete…Foi de lá que tu foi afastado, foi?

- Poisé, foi… Tava trabalhando, de repente minha vista foi ficando ruim. Piorando, piorando até que perdi totalmente a visão. Daí me afastaram, tive que voltar para Campina Grande.

- Tu voltou, é? Ficou encostado?

- Nada, rapaz. Não nasci pra aperriar ninguém não. Tava de bobeira em casa, aí voltei a estudar. Quando vim para o Rio tinha a oitava série só. Fiz vestibular, entrei na faculdade. Lá tinha um rapaz que lia e escrevia pra mim. Passava o dia todo nisso. Me formei em história tem dois anos. Tô fazendo mestrado e se o Temer não acabar com tudo, até ano que vem quero prestar concurso. Sabe, já tô aposentado, mas quero ser professor… Tu vê né rapaz, e pensar que podia ter morrido naquela portaria…

Chega uma comissária:

-Senhor Romeo, posso acompanhá-lo até seu portão de embarque?

-Opa! Vambóra. Falou Rapá! Boa sorte aí. E tu sabe, a vida é assim: quando a gente acha que acabou, tá só começando.

Essa história é real. Obrigada Professor Romeo.